PUBLICIDADE

PIX por engano: a obrigação legal de devolver e os riscos de cair em golpes

PIX por engano: a obrigação legal de devolver e os riscos de cair em golpes
Foto: Foto: Mariana Saguias/TechTudo

Receber uma transferência via Pix de um valor inesperado pode, à primeira vista, parecer uma sorte inesperada. Contudo, essa situação, cada vez mais comum com a popularização do sistema de pagamentos instantâneo, carrega implicações legais sérias e, infelizmente, tornou-se uma isca frequente para criminosos. O que fazer quando um Pix cai em sua conta por engano? A lei é clara: o dinheiro não pertence a quem o recebe e a devolução é obrigatória, sob pena de sanções cíveis e criminais.

A questão ganha ainda mais relevância diante do crescimento de um golpe específico que se aproveita dessa dinâmica. Nele, um valor é transferido para a conta de um desconhecido, e logo em seguida, o golpista entra em contato, solicitando a devolução da quantia para uma chave Pix diferente da original. A boa-fé de quem tenta ajudar pode, inadvertidamente, transformar o recebedor em cúmplice de lavagem de dinheiro ou vítima de uma fraude ainda maior.

A obrigação legal de restituir o valor

A legislação brasileira é categórica ao tratar o recebimento de um Pix por engano como um pagamento indevido. Segundo a advogada Ana Beatriz Rebello, do Bruno Boris Advogados, o Código Civil, em seu artigo 884, estabelece que ninguém pode se beneficiar de enriquecimento sem causa. “O dever de devolução surge assim que a pessoa toma conhecimento do erro, independentemente de pedido formal do remetente”, explica.

Essa obrigação não se limita ao valor envolvido ou à origem do erro. Mesmo que a falha tenha sido de quem enviou a quantia, o dinheiro não se torna propriedade do recebedor. Jefferson Leão Pires, do Poliszezuk Advogados, ressalta que a boa-fé inicial de quem apenas percebe um crédito inesperado não altera a ilegitimidade da transferência patrimonial. “Ela apenas afasta, em regra, a caracterização de dolo até que a pessoa tome conhecimento do erro”, complementa.

Marcelo Sousa, especialista em soluções antifraude e combate a golpes digitais, resume a situação: “Se o dinheiro cai na sua conta sem que exista uma razão legítima para isso, ele não é seu, e você tem o dever de devolvê-lo. Não importa se o erro foi de outra pessoa”.

Como proceder para devolver corretamente

Diante de um Pix recebido por engano, a recomendação unânime dos especialistas é utilizar a função de devolução disponível no próprio aplicativo do banco. Essa ferramenta, geralmente identificada como “Devolver” ou “Reportar problema” no histórico da transação, garante que o valor retorne automaticamente para a conta de origem.

Jefferson Leão Pires enfatiza a importância desse procedimento: “Usar a função oficial é diferente, técnica e juridicamente, de fazer um novo Pix manual para uma chave qualquer informada por mensagem. Essa diferença separa quem corrigiu um erro de quem virou vítima de golpe”. A devolução para a chave original, por meio do sistema bancário, é a única forma segura de desfazer a transação indevida.

O perigo do “golpe do Pix errado”

O pedido para que o valor seja enviado para uma chave Pix diferente daquela que realizou o depósito é o principal sinal de alerta para o chamado golpe do Pix errado. Nesta modalidade de fraude, um criminoso transfere um valor, muitas vezes obtido de forma ilícita, para a conta de um desconhecido. Em seguida, ele entra em contato, alegando engano e solicitando a devolução para uma terceira chave.

Quem, de boa-fé, realiza a transferência para a chave indicada pelo golpista, pode acabar perdendo duas vezes. “É comum que o próprio golpista depois acione o Mecanismo Especial de Devolução (MED) contra a conta que recebeu o valor original, alegando ter sido vítima de fraude. O banco pode bloquear ou reverter o valor da conta de quem apenas tentou agir corretamente”, alerta Jefferson Leão Pires. O MED é uma ferramenta do Banco Central que permite o bloqueio e a devolução de valores em casos de fraude, mas pode ser mal utilizado por criminosos.

As consequências de não devolver o Pix

A tentação de gastar um dinheiro que “caiu do céu” pode trazer sérias repercussões. Não é recomendável utilizar o valor, mesmo que por um curto período. Gastar a quantia pode caracterizar má-fé e ter desdobramentos tanto na esfera cível quanto na criminal. “Gastar o dinheiro que você sabe que recebeu por engano pode caracterizar como apropriação indébita, que é crime. Além das consequências jurídicas, você continuará devendo o valor”, complementa Marcelo Sousa.

Na esfera cível, quem enviou o Pix por engano tem o direito de cobrar a restituição na Justiça, com correção monetária e juros. A ação de repetição de indébito, fundamentada no enriquecimento sem causa, prescreve em três anos, conforme o artigo 206, parágrafo 3º, inciso IV, do Código Civil. Criminalmente, a conduta de reter o valor, sabendo de sua origem indevida, pode levar a um boletim de ocorrência e representação pelo crime previsto no artigo 169 do Código Penal, que trata da apropriação de coisa achada.

Prevenção e segurança nas transações

A melhor forma de evitar problemas é agir com cautela e informação. Sempre que receber um Pix inesperado, verifique a origem e, se for um engano, utilize a função de devolução do seu banco. Nunca transfira o dinheiro para uma chave diferente daquela que efetuou o depósito. Em caso de dúvidas ou suspeita de golpe, procure imediatamente o seu banco e as autoridades policiais.

Para mais informações sobre o funcionamento do Pix e medidas de segurança, consulte o site oficial do Banco Central. Manter-se informado é a melhor defesa contra as artimanhas dos criminosos e a garantia de que suas transações financeiras sejam sempre seguras.

O Portal de Notícias do Kardec segue comprometido em trazer informações relevantes, atuais e contextualizadas para você. Continue acompanhando nossas publicações para se manter atualizado sobre temas importantes que impactam seu dia a dia, desde finanças e tecnologia até cultura e sociedade, sempre com a credibilidade e a profundidade que você merece.

Leia mais

PUBLICIDADE