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Saúde ribeirinha no Amazonas: projeto encurta distâncias e leva atendimento essencial

Saúde ribeirinha no Amazonas: projeto encurta distâncias e leva atendimento essencial
© Lucas Bonny/FAS

A rotina de Aldeniza Silva e Silva, grávida de sete meses e moradora da comunidade de Boa Vista, na Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Uacari, em Carauari (AM), era um espelho da realidade de milhares de ribeirinhos na Amazônia. Para ter acesso a uma consulta médica, ela precisava enfrentar uma jornada de dois a três dias de rabeta, uma pequena embarcação, até a zona urbana do município. Esse trajeto árduo e demorado resultou em apenas três consultas de pré-natal, muito abaixo do mínimo de seis recomendado pelo Ministério da Saúde. A dificuldade de acesso, imposta pela grandiosidade da floresta e pela ausência de rodovias, é um desafio constante para quem vive às margens dos rios amazônicos.

A história de Aldeniza não é isolada. Maria Valkiane Freitas e Silva, da comunidade de Bauana, também enfrentava uma viagem de cerca de 12 horas de rabeta, com custos elevados de combustível, para buscar atendimento. Contudo, essa realidade começou a mudar. A recente inauguração de dois pontos de atendimento à saúde nas bases da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), nas regiões de Campina e Bauana, em Carauari, representa um marco na oferta de serviços de saúde para essas populações. A iniciativa, batizada de “SUS na Floresta”, promete encurtar distâncias e levar cuidados essenciais a quem mais precisa.

O Desafio da Distância na Amazônia

Carauari, cidade de aproximadamente 28 mil habitantes banhada pelo Rio Juruá, está localizada a mais de 1,6 mil quilômetros de distância fluvial da capital do Amazonas, uma viagem de cerca de 36 horas de lancha expressa. Seu vasto território rural é composto por dezenas de comunidades ribeirinhas, muitas delas a dias de viagem da sede municipal. Essa geografia impõe barreiras significativas ao acesso a serviços básicos, especialmente a saúde. A dependência do transporte fluvial, com seus custos e variações conforme o nível dos rios, torna cada consulta médica uma odisseia. A falta de acesso regular a cuidados preventivos e tratamentos básicos agrava condições de saúde e dificulta o acompanhamento de gestantes, crianças e idosos. Casos como o de Aldeniza, que não conseguia cumprir o pré-natal adequado, ou o de Cecilia Bispo de Lima, que temia não chegar a tempo na cidade em uma emergência, ilustram a urgência de soluções adaptadas.

A Chegada do Atendimento Mais Próximo

A inauguração dos dois novos pontos de apoio em saúde nas bases da FAS na RDS Uacari marca uma nova era para as comunidades ribeirinhas. O primeiro, inaugurado em 19 de julho na comunidade de Bauana, foi nomeado Raimundo Ribeiro de Lima (Saborá). O segundo, em Campina, inaugurado em 21 de julho, homenageia Laice Santos do Nascimento. Juntas, essas unidades atenderão 56 comunidades ribeirinhas, beneficiando cerca de 4,7 mil pessoas. A proximidade desses postos já transformou a vida de muitos. Aldeniza, por exemplo, pôde continuar seu pré-natal em Campina e levar sua filha para uma consulta. “Agora [a distância] é só de uma praia”, comemorou. A notícia se espalhou, e moradores como Luana do Carmo da Gama planejam levar seus filhos para vacinação, reforçando a importância da prevenção.

Estrutura e Modelo do “SUS na Floresta”

O projeto “SUS na Floresta” adota um modelo inovador e adaptado à realidade amazônica, combinando atendimento presencial e telessaúde. Cada unidade é equipada com consultórios para ambas as modalidades, sala de triagem, consultório odontológico e conexão à internet, além de equipamentos de telessaúde e áreas para a permanência das equipes. Todos os atendimentos são integrados ao Sistema Único de Saúde (SUS), reforçando a rede pública. Essa iniciativa é fruto de uma parceria público-privada robusta, desenvolvida por um edital do programa Juntos pela Saúde. A execução está a cargo da Fundação Amazônia Sustentável (FAS), com apoio do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e da Umame, sob gestão do Instituto para o Desenvolvimento do Investimento Social (IDIS) e suporte técnico da Prefeitura de Carauari e da Secretaria do Meio Ambiente do Amazonas. Guilherme Sylos, diretor do IDIS, enfatiza que o objetivo é “reforçar o SUS”, adaptando a Atenção Primária à Saúde às particularidades da Amazônia.

Impacto Imediato e Casos de Sucesso na Saúde Ribeirinha

Os resultados da implementação foram quase instantâneos. Na primeira semana, as unidades já evitaram diversas chamadas para as “ambulanchas”. Somente em Campina, cinco resgates foram prevenidos. Um dos casos foi o de Thiago Freitas Andrade, que pisou em uma tábua com pregos e sofria com dores intensas. Ele recebeu atendimento de um enfermeiro e uma técnica em enfermagem, que trataram a inflamação e prescreveram medicação, evitando uma longa e dolorosa viagem. Outro atendimento crucial foi o de uma criança que se feriu com um anzol de pesca. O enfermeiro Antônio Carlos Alves Bezerra relata a diversidade dos casos atendidos, desde ferimentos graves até pré-natais e casos corriqueiros como gripes, especialmente em crianças. Ele sublinha a eficiência e a relevância dos novos postos, garantindo que a distância não seja mais um impedimento para a saúde.

A implantação desses pontos de atendimento representa um avanço significativo na garantia do direito à saúde para as populações ribeirinhas do Amazonas. Ao encurtar distâncias e adaptar a estrutura de atendimento às necessidades locais, o projeto “SUS na Floresta” não apenas oferece tratamento, mas também promove a prevenção e a qualidade de vida. Para continuar acompanhando as notícias sobre iniciativas que transformam realidades e aprofundar-se em temas relevantes do Brasil e do mundo, convidamos você a explorar o Portal de Notícias do Kardec, seu destino para informação de qualidade e contextualizada.

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