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Saúde no Amazonas: esperança renasce contra perdas em comunidades ribeirinhas

Saúde no Amazonas: esperança renasce contra perdas em comunidades ribeirinhas
© Lucas Bonny/FAS

A vastidão da Amazônia, com seus rios sinuosos e florestas densas, impõe desafios únicos para o acesso a serviços básicos, especialmente a saúde. No interior do Amazonas, em municípios como Carauari, a distância entre as comunidades ribeirinhas e os centros urbanos transformou a falta de atendimento médico em uma dolorosa realidade, marcada por histórias de perdas e sequelas que poderiam ter sido evitadas. Contudo, esforços recentes e a persistência das próprias comunidades começam a reverter esse cenário, trazendo uma nova esperança para a região.

A experiência de Francisco Solivan Peres de Araújo, presidente da Associação dos Moradores Agroextrativistas da Reserva de Desenvolvimento Sustentável Uacari (Amaru), é um retrato contundente desse passado. Solivan perdeu a mãe aos dois anos de idade, durante o parto de sua irmã, devido a uma hemorragia. Na época, no final da década de 80, a impossibilidade de chegar a tempo na cidade para um atendimento adequado selou o destino de sua família. Essa tragédia pessoal ecoa em inúmeros relatos pela região, onde a distância e a carência de infraestrutura transformaram a vida em uma luta constante contra a doença e a morte.

O Desafio da Distância e o Legado de Perdas

Carauari, um dos maiores municípios do Brasil em extensão territorial, com mais de 25,7 mil quilômetros quadrados, é banhado pelo Rio Juruá e cercado pela imponente Floresta Amazônica. Essa geografia impõe que o deslocamento da zona rural, onde vivem as populações ribeirinhas, até a zona urbana, que concentra a estrutura pública de saúde, possa levar horas ou até dias. A duração da viagem é imprevisível, dependendo do tipo de embarcação e das condições do rio, que se tornam ainda mais desafiadoras em períodos de seca.

A reportagem da Agência Brasil, em uma expedição recente, vivenciou a complexidade desses trajetos. Após 35 horas de lancha expressa de Manaus até Carauari, foram necessárias mais quatro horas para chegar à comunidade de Bauana e outras quatro para alcançar regiões como Campina. Durante essa jornada, inúmeras histórias trágicas vieram à tona, evidenciando como a ausência de políticas públicas de saúde no passado deixou marcas profundas na memória e na vida dos moradores.

Adriana da Silva e Silva, por exemplo, carrega sequelas permanentes na perna após ser picada por uma cobra em janeiro de 2019, na comunidade de São José do Nachiqui. O resgate, quando acionado, não estava disponível de imediato, e o atendimento demorou mais de 24 horas para chegar. A demora e a falta de soro antiofídico agravaram seu quadro, exigindo quatro cirurgias para evitar a amputação. Embora sua perna tenha sido salva pelos médicos de Carauari, Adriana convive com a perda de tato, inchaços e dificuldades de movimento, um lembrete constante da vulnerabilidade.

Marcas de um Passado Carente: A Luta por Assistência

As histórias de mortes por falta de atendimento eram ainda mais comuns até a década de 90. Raimundo Viana da Cunha, ex-morador da comunidade Mandioca e hoje colaborador do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), relata a perda de seu irmão em 1994. Naquela época, a assistência à saúde no Médio Juruá era precária, e as famílias dependiam de “regatões” – comerciantes ambulantes que navegavam pelos rios – para conseguir transporte até a sede do município.

O irmão de Raimundo adoeceu e esperou uma semana por um barco. Quando sua mãe finalmente conseguiu uma carona, a prioridade do regatão era a venda de mercadorias, atrasando ainda mais a chegada. Duas semanas após o início dos sintomas, o irmão de Raimundo foi atendido, mas já era tarde demais. Ele veio a óbito, e a causa exata da morte, que ele lembra ser de fortes dores na barriga, nunca foi determinada.

Essa situação era comum até 1997, quando o fortalecimento de organizações de base começou a mobilizar a busca por direitos e a atrair um “olhar especial” para o Médio Juruá. A falta de atendimento causou uma “evacuação” da região, com muitas famílias, como a de Raimundo, mudando-se para a cidade em busca de melhores condições de saúde. O acesso à saúde, ou a ausência dele, moldou não apenas destinos individuais, mas também a demografia e a estrutura social dessas comunidades.

A Esperança da Saúde Mais Próxima

A partir dos anos 90, a prefeitura de Carauari implementou um sistema de lanchas de resgate, um avanço significativo para atender emergências. Embora ainda haja relatos de demora devido às imensas distâncias, essa iniciativa representou um primeiro passo para mitigar as perdas mais trágicas. A percepção dos ribeirinhos é unânime: um atendimento de saúde mais próximo de suas comunidades mudaria radicalmente o desfecho de muitas dessas histórias.

A construção de postos de saúde em comunidades distantes, como o que serve de cenário para a imagem que acompanha esta reportagem, simboliza essa nova fase. Essas estruturas representam não apenas um ponto de atendimento, mas um farol de esperança, reduzindo a necessidade de longas e perigosas viagens e garantindo que o socorro chegue a tempo. O investimento em infraestrutura e a presença de profissionais de saúde mais próximos das populações ribeirinhas são cruciais para transformar a realidade do Amazonas, garantindo dignidade e salvando vidas.

Para Solivan, que perdeu a mãe há 38 anos, a diferença é abissal. O que antes era uma realidade de desamparo, hoje começa a ser substituído por um sistema que, embora ainda em desenvolvimento, oferece perspectivas de um futuro mais seguro e saudável para as gerações vindouras. A luta por acesso à saúde na Amazônia é uma batalha contínua, mas cada posto de saúde, cada lancha de resgate e cada profissional dedicado representa uma vitória contra o isolamento e a tragédia.

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