No coração de Belo Horizonte, uma casa modernista se tornou palco para desvendar a fascinante história de Suzanna Campos, uma colecionadora apaixonada cuja vida foi marcada por um acervo inusitado: mais de 500 cinzeiros. Esses objetos, vindos de diversas partes do mundo, não apenas adornavam sua residência, mas também contavam a trajetória de uma mulher com um hobby singular, que incluía até mesmo uma curiosa correspondência com Taiwan.
A residência, um marco da arquitetura modernista no bairro Cidade Jardim, abrigou recentemente uma mostra de arquitetura, arte e decoração que reuniu parte dessa vasta coleção. Mais do que meros recipientes para cinzas, cada peça é um fragmento de uma narrativa que transcende o tempo, revelando a personalidade e a persistência de Suzanna Campos Cortez de Paula, que viveu na casa até o fim de sua vida, aos 101 anos.
A paixão por colecionar cinzeiros e as estratégias inusitadas
Formada em letras na década de 1940, Suzanna Campos dedicou décadas a acumular cinzeiros de todas as formas, tamanhos e origens. Sua paixão era tamanha que a levou a empreender estratégias criativas para expandir seu acervo, incluindo o envio de cartas a governos estrangeiros e personalidades.
Uma das histórias mais emblemáticas dessa jornada envolve uma correspondência com Taiwan. Em 20 de maio de 1952, Suzanna recebeu uma carta assinada por Pearl L. Chen, secretária da primeira-dama taiwanesa, esposa de Chiang Kai-shek. A missiva, que hoje é uma das relíquias da família, agradecia o contato e elogiava o interessante hobby da brasileira, mas lamentava não possuir um cinzeiro para contribuir com a coleção.
Outro episódio curioso, relembrado pelo jornalista Cyro Siqueira em uma crônica no jornal “Estado de Minas”, detalha a inventividade de Suzanna. Ao pedir um cinzeiro do Japão ao fotojornalista Eugênio Silva, correspondente da revista “O Cruzeiro”, ela alegou ser paraplégica para sensibilizá-lo. O cinzeiro chegou, entregue por um jovem que notou a farsa, mas manteve a discrição. Suzanna, posteriormente, admitiu a invenção em um texto enviado ao jornal, justificando que o marido não aprovava suas “investidas” para ampliar a coleção.
O legado da coleção e a arquitetura modernista
A coleção de cinzeiros de Suzanna Campos cresceu a ponto de exigir um espaço dedicado em sua residência. Uma grande estante, integrada à arquitetura da casa, foi projetada para acomodar centenas de exemplares, muitos deles decorados com símbolos de cidades, hotéis, companhias aéreas e instituições de todo o mundo. Após a morte de Suzanna, aos 101 anos, os familiares ainda encontraram peças guardadas em gavetas e baús, além das que estavam expostas.
Atualmente, a neta de Suzanna, Letícia de Paula Carneiro, guarda cerca de 200 cinzeiros, mantendo viva a memória da avó e de seu peculiar passatempo. Mais do que objetos decorativos, essas peças são testemunhas da curiosidade de uma mulher que transformou a troca de correspondências e a busca por itens únicos em uma forma original de colecionar histórias e memórias.
A casa modernista: um palco de memórias e arte
A casa que abrigou essa coleção singular é, por si só, uma obra de arte. Projetada em 1954 para o casal Suzanna Campos Cortez e Júlio de Paula, no então recém-criado bairro Cidade Jardim, em Belo Horizonte, ela é um exemplar notável da arquitetura modernista. O estudo inicial foi de Sylvio de Vasconcellos, com a versão definitiva assinada por Geraldo Ferreira Lima.
A construção, implantada em um terreno em aclive, se distribui em três níveis e segue princípios modernistas, como a integração com a paisagem, a racionalidade dos espaços e a valorização da luz e da ventilação naturais, aproveitando a vista da Serra do Curral. A história da casa também se entrelaça com a de outro ícone modernista da capital mineira: o Cassino da Pampulha, onde Suzanna e Júlio se conheceram.
A residência da Rua Manoel Couto, nº 420, foi um ponto de encontro familiar por décadas, sediando cafés da tarde dominicais que, segundo a filha Rebecca Cortez de Paula, simbolizavam a união da família. “Minha mãe foi, acima de tudo, uma mãe, avó e bisavó dedicada e querida, e essa casa guarda tudo isso”, afirmou Rebecca, ressaltando o valor afetivo do local.
Recentemente, a casa foi escolhida para a 19ª edição da mostra Morar Mais, um evento que reúne arquitetura, arte, decoração, design, gastronomia e paisagismo. A mostra, que esteve aberta à visitação até 30 de agosto, ofereceu soluções criativas e acessíveis em 24 ambientes decorados por 34 profissionais, permitindo ao público uma imersão na beleza e na história do imóvel e de parte da coleção de cinzeiros de Suzanna. Para saber mais sobre a arquitetura modernista brasileira, visite o site do ArchDaily Brasil.
A história de Suzanna Campos e sua coleção de cinzeiros é um lembrete de como objetos cotidianos podem se transformar em guardiões de memórias e narrativas pessoais, enriquecendo o patrimônio cultural de uma família e de uma cidade. Continue acompanhando o Portal de Notícias do Kardec para mais reportagens aprofundadas e contextualizadas sobre cultura, história e os fatos que moldam a nossa realidade, sempre com informação de qualidade e credibilidade.