O exercício da cidadania nas urnas enfrenta um desafio crescente com o envelhecimento da população brasileira. Com o prazo final para a solicitação de transporte gratuito individual encerrando nesta segunda-feira (14), o foco das autoridades eleitorais e de movimentos sociais se volta para a parcela do eleitorado com 70 anos ou mais. Embora o voto seja facultativo para essa faixa etária, a busca por mecanismos que garantam o acesso físico e o engajamento político tornou-se uma pauta central no debate público.
Desafios logísticos e o programa Seu Voto Importa
O programa Seu Voto Importa, instituído pela Resolução 23.753/2026 do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), surge como uma resposta direta às barreiras de mobilidade. A norma classifica idosos com dificuldades de deslocamento como pessoas com mobilidade reduzida, garantindo-lhes o direito ao transporte gratuito até o local de votação. A implementação, contudo, apresenta disparidades regionais significativas; enquanto estados como São Paulo e Minas Gerais possuem centenas de municípios integrados à iniciativa, outras regiões ainda carecem de ações estruturadas.
A logística para o primeiro turno envolve uma análise individualizada por parte dos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs). O processo considera o grau de limitação funcional, a disponibilidade de transporte público na região e a distância entre a residência e a seção eleitoral. O serviço, que pode incluir o acompanhamento de terceiros quando necessário, depende da capacidade orçamentária de cada tribunal, priorizando sempre os eleitores em situação de maior vulnerabilidade social.
A barreira da comunicação e a invisibilidade
Um dos pontos críticos identificados pelo mapeamento do data8 é a falha na comunicação. Muitos eleitores idosos não se reconhecem na categoria de “mobilidade reduzida”, o que impede a busca ativa pelo benefício do transporte. A linguagem técnica das resoluções oficiais muitas vezes cria um distanciamento entre o cidadão e o direito que lhe é assegurado, tornando a informação um recurso tão escasso quanto o próprio meio de transporte.
Além da questão física, existe o componente psicológico. Cléa Klouri, fundadora do data8 e coordenadora do Movimento Voto 70+, aponta que o sentimento de invisibilidade é um fator determinante para a abstenção. “Muitos acreditam que sua opinião não tem mais peso ou que não são mais ouvidos pelo sistema político”, explica. Para reverter esse quadro, campanhas de conscientização buscam resgatar o valor da experiência acumulada por essa geração, reforçando que a participação nas urnas é uma forma de influenciar os rumos do país.
Números que preocupam o sistema eleitoral
O cenário é desafiador: o Brasil possui cerca de 16 milhões de eleitores com mais de 70 anos, o que representa aproximadamente 10,6% do total de aptos a votar. No entanto, o histórico recente mostra uma desmobilização acentuada. Nas eleições de 2022, o país registrou cerca de 25 milhões de abstenções totais, sendo que 8 milhões desses eleitores pertenciam ao grupo acima dos 70 anos. Esse índice representa uma taxa de abstenção próxima a 60% dentro dessa faixa etária, um número que acende o alerta para a necessidade de políticas públicas mais eficazes.
A preservação do direito ao voto e o incentivo à participação democrática continuam sendo pilares para a manutenção da representatividade. O Portal de Notícias do Kardec segue acompanhando os desdobramentos das eleições e as iniciativas de inclusão eleitoral em todo o território nacional. Continue conosco para se manter informado com análises aprofundadas, dados atualizados e o compromisso com a notícia de qualidade.