Em um marco significativo para a luta antimanicomial no Brasil, duas importantes instituições de ensino superior públicas, a Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), emitiram pedidos de desculpas formais pelo uso de cadáveres de pessoas confinadas em hospitais psiquiátricos em suas aulas de anatomia. As retratações vêm à tona em um momento de crescente debate sobre a ética na saúde e a memória histórica do tratamento de pessoas com transtornos mentais no país, evidenciando um esforço para reconhecer e reparar erros do passado.
A UFJF divulgou sua nota pública sobre o assunto nesta segunda-feira, 18 de maio de 2026, seguindo a iniciativa da UFMG, que já havia se manifestado no mês anterior. Ambas as universidades reconhecem a conivência com um dos períodos mais sombrios da saúde pública brasileira, quando a segregação social, justificada por uma suposta segurança coletiva, resultou em isolamento e múltiplas formas de violência contra indivíduos que não se enquadravam em padrões sociais preestabelecidos.
O peso da história: a retratação das universidades
A carta aberta à sociedade da UFJF assume a responsabilidade da instituição em um contexto onde a “loucura” era associada à incapacidade e periculosidade. Esse processo, lamenta a universidade, contribuiu para a consolidação de estigmas e práticas discriminatórias, hierarquizando pessoas com base em gênero, classe social, orientação sexual e raça. A nota ressalta que o desprezo por essas pessoas é uma parte incontornável da história brasileira, com graves consequências para a dignidade humana.
A UFMG, por sua vez, também formalizou seu pedido de desculpas por meio de uma declaração pública, reconhecendo seus vínculos com o Hospital Colônia de Barbacena. A universidade mineira destacou que o reconhecimento público de sua responsabilidade pelas atrocidades é acompanhado de ações concretas de memória e reparação, buscando um diálogo contínuo com os grupos da luta antimanicomial.
Barbacena e o “Holocausto Brasileiro”
O Hospital Colônia de Barbacena, em Minas Gerais, é um símbolo doloroso desse período de marginalização e invisibilização de pacientes psiquiátricos. A instituição é mencionada pelas universidades como um exemplo marcante do cenário de desumanização. Estima-se que mais de 60 mil pessoas tenham morrido no local ao longo do século XX, muitas delas classificadas como indigentes. A jornalista Daniela Arbex, em seu livro Holocausto Brasileiro, documenta que 1.853 corpos de internos foram comercializados para instituições de ensino da área da saúde, para uso em aulas de anatomia.
Os registros indicam que o Instituto de Ciências Biológicas (ICB) da UFJF recebeu 169 desses corpos, entre os anos de 1962 e 1971, para serem estudados em aulas de anatomia humana. Essa prática, agora repudiada, revela uma face sombria da relação entre a academia e os hospitais psiquiátricos, onde a busca pelo conhecimento científico por vezes desconsiderou a dignidade e os direitos humanos dos indivíduos.
Ações de reparação e a nova ética na anatomia
Como forma de reparação simbólica e concreta, a UFJF comprometeu-se a lançar e manter iniciativas como ações educativas sobre direitos humanos e saúde mental. A universidade também buscará apoio para a criação de um memorial e planeja organizar pesquisas documentais sobre as conexões entre a instituição e o Hospital de Barbacena. Desde 2010, o Departamento de Anatomia do ICB da UFJF implementou o Programa de Doação Voluntária de Corpos – Sempre Vivo, garantindo que todos os corpos recebidos pela instituição sejam provenientes exclusivamente de doações voluntárias, em conformidade com as normas vigentes e com o respeito à dignidade humana.
A UFMG, por sua vez, também reforça seu compromisso com a ética. A universidade informou que, desde 1999, conta com um programa de doação de corpos para estudo de anatomia, que funciona de forma voluntária e consentida, alinhado a padrões internacionais de legalidade e ética. Além disso, a Faculdade de Medicina da UFMG incluirá o tema em suas disciplinas de anatomia e promoverá a restauração do livro histórico de registro de cadáveres, transformando-o em um instrumento de memória e reflexão.
Luta antimanicomial e a cultura brasileira
As retratações das universidades se inserem em um contexto mais amplo da luta antimanicomial, um movimento que busca a superação do modelo hospitalocêntrico e a promoção de um tratamento humanizado para pessoas com transtornos mentais. Essa batalha por direitos e dignidade tem sido retratada e discutida em diversas obras culturais, como o clássico conto O Alienista, de Machado de Assis, que critica a psiquiatria da época e a arbitrariedade na definição da “loucura”.
Outro nome fundamental nesse cenário é o da psiquiatra Nise da Silveira, que revolucionou os tratamentos para transtornos mentais no Brasil ao aliar cuidados humanizados e arte, valorizando a expressão e a subjetividade dos pacientes. Seu legado pode ser explorado no Museu Imagens do Inconsciente, no Rio de Janeiro, que preserva obras criadas por seus pacientes. A busca por um tratamento humanizado ainda é um desafio, especialmente em manicômios judiciários, que, segundo especialistas, unem “o pior da prisão e do hospício”, reforçando a necessidade de vigilância constante e de políticas públicas que garantam a dignidade e os direitos de todos.
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