A promessa de um futuro tecnológico, impulsionado por minerais estratégicos, colide com a realidade de comunidades locais no Sul de Minas Gerais. Em Poços de Caldas, a iminente instalação de uma mina de terras raras, a apenas 300 metros de residências, escolas e hospitais, tem gerado um intenso debate e dividido a opinião dos moradores. De um lado, a apreensão com os impactos ambientais e sociais; do outro, a expectativa de desenvolvimento e oportunidades econômicas para a região.
O projeto, liderado por uma mineradora australiana, abrange uma vasta área e, embora ainda esteja em fase de licenciamento, já provoca discussões acaloradas sobre o equilíbrio entre progresso e preservação. A situação de Poços de Caldas reflete um dilema global: como extrair recursos essenciais para a transição energética e a indústria de alta tecnologia sem comprometer a qualidade de vida e o meio ambiente das populações vizinhas?
O Dilema da Proximidade: Uma Mina no Quintal
No Conjunto Habitacional Pedro Afonso Junqueira, em Poços de Caldas, a paisagem familiar está prestes a mudar drasticamente. Um morro é tudo o que separa o bairro da área de 373 hectares onde a mineradora australiana Viridis planeja instalar o projeto Colossus. Em alguns pontos, as futuras escavações ficarão a meros 300 metros de casas, escolas e hospitais, levantando sérias preocupações entre os habitantes.
A cozinheira aposentada Dirce Elena da Silva Alves, de 61 anos, expressa um desespero palpável. Moradora do conjunto há 44 anos, ela teme pelo futuro de sua neta e das próximas gerações. “Mineração não é brinquedo, é um risco de vida para muitos. A gente não sabe o que pode acontecer. Me dá um desespero tão grande. Tem minha neta que mora aqui do lado. A gente talvez não viva mais tempo, já estou idosa, mas a nova geração, que futuro vai ter? Ver aqueles buracos que tornam um lugar tão triste, tão feio. É aterrorizante”, desabafa. Dona Dirce recorda as dificuldades superadas para construir o bairro e teme perder a tranquilidade conquistada.
Poucas casas adiante, Silvia Helena, que reside no bairro há quase 30 anos, foi pega de surpresa pela notícia. Sua principal preocupação é com a saúde da filha e do neto, ambos com problemas respiratórios, e com a integridade estrutural de sua casa. “Isso vai prejudicar o bairro, vai acabar com a natureza, poluir o ar. Eles vão escavar fundo na terra, e se isso afetar a respiração e abalar as casas?”, questiona, evidenciando a incerteza que permeia a comunidade.
O Valor Estratégico das Terras Raras e o Potencial Brasileiro
As terras raras são um grupo de 17 elementos químicos essenciais para a fabricação de tecnologias de ponta, como carros elétricos, turbinas eólicas, celulares, equipamentos de defesa e superímãs. Sua demanda global cresce exponencialmente, tornando-os minerais estratégicos no cenário geopolítico e econômico mundial.
O Brasil, detentor da segunda maior reserva de terras raras do mundo, ocupa uma posição estratégica nessa corrida global. Contudo, o país ainda tem uma participação modesta na produção e nas etapas de maior valor agregado desses minerais. O Planalto de Poços de Caldas se destaca como uma das áreas mais promissoras do Brasil para a exploração, devido à presença dos minérios em argila na superfície e em alta concentração, o que, teoricamente, permitiria uma extração com menor necessidade de grandes escavações.
O projeto Colossus, da Viridis, prevê o início da mineração em 2028, com uma expectativa de 40 anos de atividade. A empresa estima movimentar 5 milhões de toneladas de argila e produzir 15 mil toneladas de carbonato de terras raras por ano, um volume significativo que posicionaria a região como um polo importante na cadeia global desses minerais.
Impactos Ambientais e a Busca por Estudos Aprofundados
Apesar do potencial econômico, as preocupações ambientais são um ponto central do debate. A região da mineração é um importante repositório de águas, com 93 nascentes identificadas. A organização Terra Viva, Água Rara alerta que três dessas nascentes poderão ser extintas e outras duas severamente comprometidas. A mineradora admite que três nascentes serão afetadas, mas não fala em extinção.
Outra apreensão reside na possível contaminação do lençol freático pela amônia, substância que será utilizada no processo de tratamento da argila para a separação dos elementos terras raras. A advogada Jovana Moster, membro da Terra Viva, destaca a falta de estudos independentes. “Mesmo que a empresa apresente um estudo dela, a gente precisava de outro para confrontar. Um estudo independente pode, inclusive, contribuir para a empresa fazer o seu trabalho de maneira mais adequada. Sem isso, a gente fica na mão de uma única perspectiva”, argumenta.
A funcionária pública Milca Aparecida Albino Silva compartilha dessa visão, ressaltando a complexidade do tema. “A mineração de terras raras é um universo totalmente novo que poucos conhecem, e a sensação que eu tive é que a cidade está acelerando o processo sem estudar os impactos que isso terá, não somente para a Zona Sul, mas para todo Planalto de Poços de Caldas.” Ela, que passou a participar de audiências públicas em 2024, ficou alarmada com a amplitude do projeto ao ver o mapa da região a ser minerada.
O Ministério Público do Estado foi contatado pelo g1 para se manifestar sobre o andamento dos pedidos de novos estudos e questionamentos ao licenciamento, mas não havia retornado até a publicação desta reportagem.
Desenvolvimento Econômico versus Preservação: Os Dois Lados da Moeda
Em contraste com os temores, uma parcela dos moradores e representantes locais enxerga a chegada da mineração como uma oportunidade de desenvolvimento e progresso para Poços de Caldas. A terapeuta Patrícia Chagas, que também mora no conjunto habitacional há 44 anos, inicialmente se sentiu assustada, mas mudou sua percepção após ter acesso ao planejamento da mineradora.
“No início, eu me senti assustada, me senti temerosa a respeito de vários aspectos e me posicionei. Mas tive acesso ao que a mineradora estava fazendo, todo o planejamento. Eles estão agindo, a meu ver, seguindo as regras, seguindo as legislações. Eles não vão atuar se essas legislações não permitirem”, afirma Patrícia, indicando uma confiança nos processos regulatórios.
O educador físico Leonardo Rodrigues de Souza reforça a perspectiva de benefícios. “Qualquer atividade que tenha conotação extrativista é vista como algo prejudicial, mas também vejo como oportunidade de desenvolvimento. Deve ser levado em conta o quanto ficará de benefício para a região: será somente extração e exportação de commodity ou iremos desenvolver tecnologia para que realmente possamos usufruir o máximo dessa atividade. Outro ponto muito importante seriam as contrapartidas da própria mineradora para ações sociais da cidade”, pondera.
A Viridis anunciou investimentos significativos no Planalto de Poços de Caldas, totalizando R$ 132,5 milhões no quarto trimestre de 2025, incluindo a aquisição de novas áreas de exploração, um laboratório de reciclagem de superímãs (o primeiro do Hemisfério Sul) e um laboratório de extração de terras raras. A empresa prevê um investimento total de R$ 1,6 bilhão na instalação da mina e cerca de R$ 1,7 bilhão até o início da operação, com parte desse valor destinada a pesquisas, levantamentos de campo e estudos de impactos e medidas de mitigação. A mineradora afirma ter entregue diversos estudos ambientais à Fundação Estadual do Meio Ambiente (Feam), um levantamento que durou um ano e custou cerca de R$ 3 milhões.
O debate em Poços de Caldas sobre a mina de terras raras é um microcosmo das complexidades que envolvem o desenvolvimento econômico e a sustentabilidade ambiental. Acompanhe o Portal de Notícias do Kardec para se manter informado sobre este e outros temas relevantes, com análises aprofundadas e contextualizadas que impactam a sua realidade e a do país.