Em um dos casarões históricos da Rua Conde de Bobadela, antiga Rua Direita, no coração de Ouro Preto, Minas Gerais, uma descoberta transformou um porão esquecido em um sítio arqueológico de relevância nacional. Gravuras traçadas há séculos, possivelmente por pessoas escravizadas, vieram à luz durante uma reforma, revelando um testemunho raro e pungente da história da diáspora africana no Brasil.
O imóvel, construído há mais de 260 anos, no número 134 da rua, guardava em suas paredes de pedra e argamassa um painel de desenhos que passou despercebido por gerações. A revelação, que ocorreu em 2017, durante obras iniciadas pelos pais do administrador Philipe Passos, donos da casa desde 1980, reacende o debate sobre a memória da escravidão e a importância de preservar esses vestígios para as futuras gerações.
A descoberta inesperada em Ouro Preto e seus primeiros sinais
A história da descoberta começou de forma inusitada. Um funcionário, durante os trabalhos de reforma, notou os desenhos incisos no porão e alertou a família. O que pareciam simples rabiscos revelou-se um complexo conjunto de gravuras, que agora são objeto de estudo aprofundado e reconhecimento oficial. Philipe Passos, emocionado com a revelação, descreve o painel como uma “mensagem do passado para o futuro, que reforça o sentimento da brutalidade que foi e que é a escravização do homem pelo homem”.
Ouro Preto, no século XVIII, foi o epicentro do ciclo do ouro no Brasil, um período marcado pela intensa exploração do trabalho de pessoas escravizadas. A Rua Direita, onde o casarão está localizado, era uma das artérias principais da então Vila Rica, testemunha silenciosa de uma época de riqueza e opressão. A descoberta no porão da casa oferece uma janela única para a vida e a expressão dessas pessoas.
Decifrando as inscrições afrodiaspóricas
Há quatro anos, o historiador e arqueólogo Leonardo Klink, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), dedica-se ao estudo do painel e do sobrado, tema de seu projeto de doutorado. Utilizando uma abordagem não interventiva, focada na preservação, Klink identificou 26 gravuras, algumas delas invisíveis a olho nu. Entre os desenhos, há uma embarcação com três pessoas, uma máscara com feições humanas, um felino, duas aves, plantas e formas geométricas.
Uma das figuras mais intrigantes combina traços humanos e animais, com braços, pernas, tronco, chifres e dentes pontudos. Há também um desenho arquitetônico que remete a referências da África Ocidental, algo incomum na América Portuguesa da época. Klink explica que as gravuras foram feitas com grafite mineral e incisões, possivelmente usando pregos e cacos de vidro.
Memórias e mistérios de um passado doloroso
A autoria e a data exata das gravuras permanecem um mistério, mas a pesquisa sugere que diferentes mãos, talvez de gerações distintas, deixaram suas marcas no painel entre a década de 1750 e a primeira metade do século XIX. Acredita-se que os autores eram pessoas que sobreviveram à rota transatlântica da escravidão e, de alguma forma, preservaram suas memórias pré-escravização.
O contexto em que esses desenhos foram criados também é incerto. Embora os porões de sobrados fossem frequentemente usados como senzalas, Klink levanta outra possibilidade: um espaço inacessível e seguro, onde as pessoas escravizadas podiam expressar suas lembranças e identidades de forma resguardada. “Até meados da década de 1970, esse porão era um lugar escuro, com piso de terra, sem energia elétrica, úmido”, descreveu o arqueólogo, reforçando a ideia de um refúgio para a expressão.
Reconhecimento e relevância nacional pelo Iphan
Em 23 de março de 2026, o painel foi oficialmente registrado como sítio arqueológico e cadastrado no Sistema Integrado de Conhecimento e Gestão (SICG) do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), recebendo o nome de “Inscrições Afrodiaspóricas”. O parecer técnico que recomendou o reconhecimento, assinado pelo arqueólogo Daniel Gabriel da Cruz, enfatiza o “valor único” do bem, destacando a ausência de vestígios semelhantes na bibliografia consultada.
O Iphan, em nota, afirmou estar “direcionando esforços para o projeto de conservação do painel” e para a elaboração de diretrizes de visitação. O órgão ressaltou que o sítio arqueológico é de “relevância nacional, com valor informativo e memorial excepcional”, sendo fundamental para a história da diáspora africana em Minas Gerais e no Brasil. Este reconhecimento sublinha a importância de dar voz e visibilidade a narrativas muitas vezes silenciadas pela história oficial.
O futuro do casarão e a mensagem de resistência
O administrador Philipe Passos, responsável pela restauração do imóvel, ainda aguarda as determinações do Iphan para definir o destino final da casa. No entanto, a intenção da família é clara: o porão será dedicado à contemplação do painel. Além disso, Philipe expressa um desejo pessoal de que o restante da casa também siga o caminho de denúncia e resistência, ecoando a mensagem dos desenhos: “Um não a todas as formas de escravização”.
A descoberta em Ouro Preto não é apenas um achado arqueológico; é um convite à reflexão sobre a memória, a identidade e a luta por justiça social. As “Inscrições Afrodiaspóricas” se tornam um símbolo poderoso da resiliência e da capacidade humana de deixar sua marca, mesmo nas condições mais adversas. Para saber mais sobre o patrimônio cultural brasileiro, visite o site do Iphan.
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