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Terras raras no Sul de Minas: Caldas busca futuro em mineração com lições do passado nuclear

Foto: Arte/g1
Foto: Arte/g1

A cidade de Caldas, localizada no Sul de Minas Gerais, encontra-se em um momento crucial, dividida entre a promessa de um novo ciclo de desenvolvimento econômico e o temor de reviver os impactos ambientais de seu passado nuclear. Um projeto ambicioso de mineração de terras raras, previsto para iniciar em 2028, reacende o debate sobre a convivência com um legado de rejeitos radioativos e a necessidade de fiscalização rigorosa para garantir a segurança da população e do meio ambiente.

Este novo empreendimento, batizado de “Projeto Caldeira”, da empresa australiana Meteoric Resources, promete impulsionar a economia local, mas sua proximidade com a antiga mina de urânio das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) gera apreensão. Enquanto órgãos reguladores afirmam que os estudos não apontam risco relevante de radiação, moradores e ambientalistas exigem cautela e transparência, lembrando as cicatrizes deixadas pela mineração anterior.

O Projeto Caldeira e a Promessa das Terras Raras

O “Projeto Caldeira” está programado para entrar em operação em 2028, abrangendo uma área de 425 hectares no município de Caldas. A projeção é que o empreendimento processe anualmente 5 milhões de toneladas de material, gerando cerca de 15 mil toneladas anuais de carbonato de terras raras. Esses elementos são cruciais para tecnologias modernas, como carros elétricos, turbinas eólicas, celulares e equipamentos de defesa, tornando o projeto estratégico na corrida global por minerais críticos.

Com a capacidade de abastecer aproximadamente 8% da demanda mundial por terras raras, o projeto posiciona Caldas no mapa da mineração global. A empresa Meteoric Resources assegura que a mineração será feita em superfície, com retirada de argila rasa, sem o uso de explosivos e, crucialmente, sem a construção de barragens de rejeitos. As cavas abertas serão progressivamente preenchidas com a própria argila tratada, minimizando a alteração paisagística e ambiental.

A Sombra do Passado: O Legado Nuclear de Caldas

Apesar das promessas de desenvolvimento, o novo projeto de mineração de terras raras nasce em um território sensível, marcado pela história da mineração de urânio. A antiga mina da INB (anteriormente UDC), inaugurada na década de 1980, foi responsável pela produção de 1,5 mil toneladas de concentrado de urânio, essencial para o abastecimento da usina de Angra I e para o programa nuclear brasileiro.

Desativada desde meados da década de 1990 e atualmente em processo de descomissionamento, a unidade ainda abriga um passivo ambiental significativo: 12 mil toneladas de rejeitos radioativos. Esse material, proveniente da extração de terras raras de areia monazítica da antiga Usina Santo Amaro (USAM), está armazenado em tambores, galpões, subsolo e em uma barragem. Essa herança indigesta alimenta a desconfiança dos moradores, que temem que um novo ciclo de desenvolvimento temporário possa deixar novos impactos permanentes.

Temores Locais: Agricultura, Meio Ambiente e Qualidade de Vida

A comunidade de Caldas, com seus 14,2 mil habitantes, e o distrito de Pocinhos do Rio Verde, vivem da agricultura, com mais de 900 produtores rurais, a maioria de agricultura familiar. Mais de 100 deles estão estabelecidos na região próxima à mina, cultivando uvas, rosas e hortaliças, além da produção de leite. O presidente do Sindicato Rural de Caldas, Messias Sebastião Guimarães, expressa a preocupação dos agricultores com a contaminação da água e do solo.

Moradores como a funcionária pública aposentada Vanda Maria de Carvalho Reis, que há 25 anos construiu seu “paraíso” rural a apenas dois quilômetros da futura mina, temem impactos cotidianos. O aumento do tráfego de caminhões, a poeira, a emissão de partículas e as possíveis alterações nas nascentes são pontos de apreensão que ameaçam a tranquilidade e o valor de suas propriedades. A sensação de impotência e a percepção de perda já se manifestam, mesmo antes do início das operações.

Daniel Tygel, presidente da Aliança em Prol da APA Pedra Branca, destaca a proximidade entre as futuras áreas de escavação e os rejeitos radioativos da antiga mina, a apenas dois quilômetros. Ele alerta para os riscos de vibrações, escavações e alterações no terreno que poderiam comprometer as estruturas existentes. Além disso, a presença natural de elementos radioativos como urânio e tório nas argilas com terras raras levanta questões sobre o comportamento desses elementos durante o beneficiamento químico e a possibilidade de drenagem ácida, que pode transportar substâncias químicas para cursos d’água.

Medidas e Garantias: O Posicionamento das Autoridades e da Empresa

A administração municipal de Caldas, liderada pelo prefeito Airton Pereira Goulart (MDB), admite que a proposta foi recebida com desconfiança inicial, dada a experiência com a INB. Contudo, foram adotadas medidas para proteger o município. A prefeitura contratou assessoria especializada em mineração e direito ambiental, investindo cerca de R$ 120 mil em suporte técnico, mesmo com os pareceres da Autoridade Nacional de Segurança Nuclear (ANSN) indicando que os níveis de radiação previstos estariam dentro dos parâmetros aceitos.

Foi firmado um termo de compromisso com a empresa, contendo 46 condicionantes rigorosas para a implantação da atividade. Entre as exigências estão a proibição de atividades dentro da Área de Proteção Ambiental (APA) Pedra Branca, a limitação de até três cavas abertas simultaneamente, a recuperação progressiva das áreas exploradas, o monitoramento contínuo de águas superficiais e subterrâneas, o controle da qualidade do ar e de ruídos, e a priorização de bens e serviços de fornecedores locais. Essas medidas visam construir uma relação de confiança e evitar que Caldas se torne “mais uma INB” na vida dos moradores, como ressaltou o prefeito.

O cenário em Caldas é um microcosmo dos desafios enfrentados por diversas comunidades brasileiras que buscam equilibrar o desenvolvimento econômico com a preservação ambiental e a saúde pública. Acompanhar de perto a implementação do Projeto Caldeira e a fiscalização de suas condicionantes será fundamental para garantir que o futuro da mineração de terras raras traga prosperidade sem repetir os erros do passado. Para mais informações sobre este e outros temas relevantes, continue acompanhando o Portal de Notícias do Kardec, seu portal de informação relevante, atual e contextualizada.

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