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Vladimir Safatle: a urgência de nomear o fascismo e suas raízes na violência colonial

© Cecília Bastos/USP Imagens
© Cecília Bastos/USP Imagens

Em um cenário global marcado pela ascensão de movimentos autoritários, o filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle, emerge como uma voz crítica e incisiva. Ele defende a necessidade imperativa de classificar abertamente as manifestações contemporâneas da extrema direita como fascistas, desafiando a resistência de muitos pensadores em utilizar o termo. Para Safatle, essa hesitação não apenas obscurece a compreensão do fenômeno, mas também pode tornar intelectuais cúmplices de um processo que naturaliza formas de violência.

Autor do livro A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, Safatle aponta que os apoiadores desses movimentos agem a partir de um cálculo racional e implacável: a crença de que “não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu”. Essa perspectiva, segundo o filósofo, revela a brutalidade subjacente a essas ideologias. Suas reflexões serão aprofundadas no debate “Novos Fascismos Globais”, parte da programação d’A Feira do Livro, em São Paulo, no dia 6 de junho de 2026, a partir das 11h40.

A recusa em nomear o fascismo e suas implicações

A discussão sobre a aplicação do conceito de fascismo tem sido um ponto de discórdia no ambiente acadêmico e político. Safatle critica a tendência de circunscrever o fascismo a um fenômeno histórico restrito aos anos 1930, especificamente ao autoritarismo italiano. Para ele, essa limitação é uma decisão política que impede a percepção de como as democracias liberais, ao longo da história, naturalizaram práticas de violência tipicamente fascistas em certos territórios e contra determinados grupos sociais.

O filósofo argumenta que a recusa em reconhecer a continuidade e a evolução do fascismo na realidade atual é um erro grave. “Uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo”, afirmou em entrevista à Agência Brasil. Essa cumplicidade, segundo Safatle, reside na omissão em confrontar e nomear as ameaças autoritárias que se manifestam de novas formas.

Fascismos restritos: a naturalização da violência em democracias

Safatle propõe uma análise mais complexa das democracias liberais, sugerindo que, em vez de serem formas políticas naturalmente justas, elas podem ser entendidas como “fascismos restritos”. Ele explica que, em situações de crise, essas formas de violência fascista, que já são aplicadas sistematicamente contra grupos sociais específicos e em territórios delimitados, tendem a se generalizar. Isso significa que a violência que antes era direcionada a minorias ou periferias passa a ser uma prática mais difundida.

Essa perspectiva desafia a visão idealizada da democracia, revelando que a integridade pessoal e a proteção estatal não são universais. O filósofo ilustra essa disparidade com um exemplo contundente: enquanto um morador de um bairro nobre como Higienópolis, em São Paulo, pode se sentir seguro e protegido pela lei, a realidade é drasticamente diferente para quem vive em comunidades como o Complexo do Alemão, onde a violência e a impunidade são rotineiras. “Falar de democracia nesse caso é uma obscenidade. Dessa perspectiva, [a democracia] ela simplesmente nunca existiu”, enfatiza Safatle, expondo a seletividade da proteção estatal.

As raízes coloniais da violência fascista no Brasil e no mundo

Um dos pontos mais originais da análise de Vladimir Safatle é a conexão direta entre o fascismo histórico e as práticas da violência colonial. Ele argumenta que os “dispositivos de tecnologia de violência do fascismo” – como guerra de raça, supremacismo, desaparecimento forçado, extermínio, massacres administrativos e indiferença a genocídio – foram inicialmente desenvolvidos e testados em contextos coloniais. O fascismo, portanto, não seria uma invenção do século XX, mas uma derivação e generalização de métodos já empregados para dominar e controlar populações colonizadas.

No Brasil, um país com uma forte matriz colonialista, essas formas de violência foram perpetuadas na relação do Estado com certas populações, especialmente as mais vulneráveis. A segregação explícita na forma de proteção estatal, onde o Estado protege alguns setores e “preda” outros, é uma norma facilmente perceptível. Safatle observa que mesmo países europeus, frequentemente vistos como modelos de democracia liberal, foram potências coloniais até o final dos anos 1960. Com o acirramento das crises estruturais do capitalismo, esses países tendem a replicar níveis de violência similares contra populações precarizadas e imigrantes em seus próprios territórios metropolitanos, evidenciando a persistência da lógica fascista.

Fascismo e extrema direita: uma distinção necessária

Safatle reafirma a ligação intrínseca do fascismo com a extrema direita, embora reconheça a existência de violências em outros espectros políticos. Ele, no entanto, discorda de abordagens que buscam amalgamar diferentes formas de autoritarismo, como a de Hannah Arendt, que utilizou o conceito de totalitarismo para equiparar a violência fascista à stalinista. Para o filósofo, são “duas formas de violência que estão longe de serem realmente o espectro da luta por emancipação”, mas que possuem naturezas distintas.

Em seu livro, Safatle detalha as diferenças entre a violência fascista e a stalinista, enfatizando que o fascismo deve ser compreendido principalmente como uma forma de violência com gradações. Essas gradações se fortalecem e se intensificam de acordo com a dinâmica interna dos processos políticos e as lógicas de crise que a sociedade enfrenta. A clareza nessa distinção é fundamental para uma análise precisa e para o desenvolvimento de estratégias eficazes de enfrentamento a cada tipo de ameaça autoritária.

As análises de Vladimir Safatle oferecem uma perspectiva crucial para entender os desafios contemporâneos à democracia, convidando à reflexão sobre as raízes históricas e as manifestações atuais do fascismo. Para continuar acompanhando debates aprofundados, notícias relevantes e análises contextualizadas sobre os temas que impactam a sociedade, siga o Portal de Notícias do Kardec. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, oferecendo uma variedade de temas para manter você sempre bem informado.

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