A força de uma tradição secular em Minas Gerais
Em Piranguinho, no sul de Minas Gerais, o aroma do amendoim com rapadura é mais do que uma lembrança afetiva; é o motor de uma engrenagem econômica que sustenta o município há mais de 90 anos. Reconhecido como patrimônio imaterial do estado, o famoso pé de moleque da região deixou de ser apenas uma iguaria caseira para se tornar o principal pilar de desenvolvimento local, envolvendo 13 fabricantes e gerando cerca de 700 empregos diretos e indiretos.
A trajetória do doce reflete a própria história da cidade. Se nas décadas passadas o ponto de encontro obrigatório para os viajantes era a antiga estação ferroviária, o encerramento do transporte de passageiros nos anos 1970 forçou uma reinvenção. Os produtores migraram para as margens da rodovia, onde as icônicas barracas coloridas se consolidaram como um cartão-postal e ponto de parada estratégica para quem cruza o território mineiro.
Tecnologia e expansão de mercados
A modernização não foi um obstáculo, mas uma aliada na preservação da identidade do produto. Empresas tradicionais, como a Barraca Amarela, integraram sistemas de gestão, aplicativos de vendas e plataformas digitais para otimizar a logística e o atendimento. Essa transformação permitiu que o pé de moleque de Piranguinho rompesse as fronteiras físicas do estado, chegando a cafeterias e empórios em locais distantes, como Campo Grande (MS).
A tecnologia, contudo, é aplicada com cautela para não comprometer a essência artesanal. Segundo os produtores, a digitalização dos pedidos e o controle de estoque via software garantem a agilidade necessária para atender à crescente demanda nacional, sem que o modo de preparo sofra alterações que descaracterizem a receita original que atravessou gerações.
O impacto do turismo e a identidade cultural
O pé de moleque transcende o valor comercial, consolidando-se como um símbolo da identidade do povo piranguinhense. O prefeito Paulo Renato Germiniani Ribeiro destaca que o município busca agora o reconhecimento oficial como Capital Nacional do Pé de Moleque. Esse movimento visa fortalecer ainda mais o fluxo turístico, que movimenta hotéis, restaurantes e o comércio local durante todo o ano, e não apenas em datas festivas.
A 19ª edição da Festa do Maior Pé de Moleque do Mundo, realizada entre 12 e 14 de junho no Parque Municipal Luiz Vieira Neto, exemplifica essa integração entre cultura e economia. O evento, que oferece entrada gratuita, atrai visitantes de diversos estados, reforçando o papel da cidade como referência gastronômica e turística no cenário nacional. Para os moradores, como a senhora Sueli Aparecida Mendonça dos Santos, de 75 anos, ver a tradição valorizada é motivo de orgulho: “As pessoas continuam vindo atrás daquilo que tornou Piranguinho conhecida”.
Um legado para as próximas gerações
O desafio atual dos produtores é equilibrar o crescimento acelerado com a manutenção da qualidade que tornou o doce um ícone. Sônia Torino, proprietária da tradicional Barraca Vermelha, resume o sentimento de quem vive da produção: “O desafio é atender essa demanda sem perder a qualidade e a tradição que atravessam gerações”. A história, que remonta a 1936, segue viva, adaptando-se às exigências do mercado moderno sem abrir mão do cuidado manual que define o doce.
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