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Cabo Verde mineira se mobiliza em torcida inédita por nação africana xará na Copa do Mundo

cionou momentos de convivência entre as crianças. "Elas conheceram outras crianç
Reprodução G1

A paixão pelo futebol e a força dos laços comunitários ganham um contorno especial na cidade de Cabo Verde, localizada no Sul de Minas Gerais. Com apenas 11,4 mil habitantes, o município se transformou em um vibrante palco de apoio à seleção de um país a quase 5 mil quilômetros de distância: a nação africana de Cabo Verde, que faz sua estreia inédita na Copa do Mundo de 2026. A mobilização, que incluiu a pintura de ruas e a instalação de telões, reflete uma conexão única, impulsionada pela coincidência de nomes e pelo espírito do Mundial.

Nesta segunda-feira, 15 de julho, quando a seleção africana enfrenta a Espanha em sua primeira partida no torneio, os olhos dos moradores da cidade mineira estarão atentos. Embora o Brasil continue sendo a primeira paixão nacional, Cabo Verde (MG) adotou a equipe africana como sua segunda seleção favorita, criando uma atmosfera de festa e união que resgata antigas tradições das Copas do Mundo.

Mobilização Comunitária e o Espírito da Copa

A iniciativa de colorir as ruas e preparar a cidade para os jogos partiu de um bar na praça central, liderado pela empresária Laís Podestá. A proposta rapidamente ganhou adesão, transformando a praça em um ponto de encontro para famílias e, especialmente, para dezenas de crianças que se empenharam na pintura das bandeiras dos dois países no asfalto.

“Foi lindo ver a praça cheia de famílias e crianças empenhadas”, relembra Laís Podestá. A atividade não apenas decorou a cidade, mas também proporcionou momentos valiosos de convivência. A publicitária Mariana Oliveira, que levou a filha Raquel, de 2 anos, e as sobrinhas Sofia, de 8, e Marina, de 10 anos, destacou o impacto positivo. “Elas conheceram outras crianças, aprenderam a compartilhar os materiais, a tinta, a desenhar juntas. Foi um momento muito especial de convivência. Todos brincaram muito”, conta Mariana.

A empresária Jacira Itelvina Viana, que participou com o filho João Miguel, de 10 anos, reforçou a importância da experiência para as crianças. “Foi um momento de muita alegria. Acho que muitas delas nunca tinham vivido algo assim. Ficaram felizes por participar, por ajudar a fazer as pinturas e por conhecer um pouquinho dessa história”, relata Jacira. Além da decoração, a programação inclui a instalação de um telão para os jogos da Seleção Brasileira e uma televisão no bar de Laís para as partidas da seleção africana, consolidando a torcida dupla.

Uma Conexão Além do Futebol: A Coincidência dos Nomes

A semelhança nominal entre a cidade mineira e o país africano há muito tempo intriga e gera curiosidade. Essa coincidência transformou a cidade brasileira em uma espécie de “xará” da nação insular, e a Copa do Mundo apenas intensificou essa ligação. A atendente Mariele Mendes da Silva compartilha uma experiência que ilustra bem essa curiosidade: “Conversando com uma mulher [em Aparecida (SP)], ela perguntou de onde a gente era. Como estávamos em um grupo, respondemos que éramos de Cabo Verde. Então ela perguntou se era Cabo Verde, na África. Nós explicamos que existe também o Cabo Verde de Minas, e ela ficou surpresa.”

Nas escolas do município, a coincidência se tornou um tema de aprendizado. A estudante Lorena Batista dos Santos, de 10 anos, afirma que o assunto é frequentemente discutido em sala de aula. “Eu acho muito legal, porque a professora já vem ensinando todo mundo sobre essa coincidência entre a nossa cidade e o país da África”, diz Lorena. Sua colega, Bárbara Mendes Dias, também de 10 anos, ficou surpresa ao descobrir as diferenças linguísticas: “O português que a gente fala aqui não é o mesmo de lá. O deles é mais parecido com o de Portugal. Até caiu na prova”, relata.

A relevância dessa conexão foi reconhecida até mesmo pelo embaixador de Cabo Verde no Brasil, José Pedro Máximo Chantre D’Oliveira, que já conhecia a existência da cidade mineira antes de assumir o cargo. Em 2024, o embaixador visitou o município para aprofundar-se na história local e explorar as possíveis origens do nome compartilhado. Em entrevista a um portal de notícias, ele expressou sua admiração: “O que mais me chamou a atenção foi a fraternidade das pessoas em torno desse nome. Nós somos cabo-verdianos e eles são cabo-verdenses, mas em torno da mesma designação.”

As Raízes do Nome: História e Debate

A origem do nome da cidade mineira de Cabo Verde é um tema que desperta debates e curiosidade há décadas. A cientista social Lidia Torres aponta que a explicação mais difundida entre os moradores é uma lenda popular sobre um “cabo” que teria brotado do solo e permanecido verde. Outra versão popular associa o nome à existência de pedras preciosas na região, semelhantes às encontradas na África.

Contudo, pesquisas históricas oferecem uma hipótese diferente e mais fundamentada. “Com base em fontes documentais, acredita-se que o nome da cidade tenha surgido por causa dos chamados ‘pretos Cabo Verde’, população negra escravizada ou livre que estava presente em grande número na região”, explica a pesquisadora. Estudos baseados em registros paroquiais dos séculos XVIII e XIX indicam uma forte presença da população negra na formação do município, com mais da metade dos habitantes da região sendo composta por pessoas escravizadas ou libertas.

Apesar da coincidência com o nome do país africano, Lidia Torres ressalta a importância de não afirmar uma ligação direta entre a origem da cidade mineira e o arquipélago. Cabo Verde, na África, foi um entreposto crucial no tráfico atlântico de pessoas escravizadas. Muitos africanos que passavam pelas ilhas antes de serem enviados ao Brasil eram genericamente identificados como “caboverdes”, independentemente de sua verdadeira origem étnica. “Não dá para afirmar que os escravizados presentes na região vieram de Cabo Verde. O que podemos dizer é que existe uma relação histórica entre a cidade e a população negra, escravizada ou livre, que ajudou a formar o município”, conclui a cientista social.

A torcida em Cabo Verde (MG) pela seleção africana transcende o esporte, tornando-se um símbolo de conexão cultural e histórica. Essa mobilização não só celebra o futebol, mas também aprofunda o conhecimento sobre as raízes e a identidade da comunidade local, fortalecendo laços de fraternidade e curiosidade mútua. Para continuar acompanhando notícias relevantes, contextualizadas e aprofundadas sobre este e outros temas que impactam a sociedade, convidamos você a explorar o Portal de Notícias do Kardec, seu destino para informação de qualidade e credibilidade.

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