Pacientes e gestores de saúde do Sul de Minas Gerais estão enfrentando uma realidade preocupante: longas esperas por internação, que chegam a dias, após a recente alteração no sistema de regulação de vagas. A implantação da nova Central de Operações para Regulação Estadual (Core/MG), que substituiu o antigo SUS Fácil, tem sido apontada como a principal causa dos gargalos que afetam diretamente a população que depende do Sistema Único de Saúde (SUS).
A situação crítica levou prefeitos de diversos municípios da região a se reunirem com representantes do governo estadual, buscando soluções urgentes para um problema que já sobrecarrega as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) e causa angústia às famílias.
A Transição e os Primeiros Obstáculos na Regulação
A substituição do sistema SUS Fácil pela Core/MG, implementada pela Secretaria Estadual de Saúde de Minas Gerais, tinha como objetivo otimizar a gestão de leitos e transferências de pacientes. No entanto, o que se observa na prática é um cenário de dificuldades crescentes. Gestores de saúde e profissionais da linha de frente relatam que a remoção e a transferência de pacientes se tornaram mais complexas, com o novo modelo, por vezes, direcionando pessoas para cidades distantes, mesmo quando há tratamento disponível no próprio município de origem, ou recebendo pacientes de outras regiões, como o norte do estado.
Essa dinâmica tem gerado um congestionamento nas UPAs, que acabam funcionando como hospitais de retaguarda, com pacientes aguardando por internação por períodos excessivamente longos. A preocupação é que essa sobrecarga comprometa a capacidade de atendimento de urgência e emergência, colocando vidas em risco.
O Drama da Espera e a Sobrecarga nas UPAs
O impacto direto dessa mudança é sentido pelos pacientes e seus familiares. O comerciante Evandro Ricardo da Silva vivenciou o desespero ao esperar horas pela internação de sua mãe, que apresentava suspeita de AVC na UPA de São Sebastião do Paraíso. A angústia foi tamanha que ele chegou a considerar a possibilidade de buscar atendimento particular, antes que sua mãe fosse finalmente internada na Santa Casa da própria cidade. “É desespero, é minha mãe, é um amor que a gente tem pela pessoa. Cheguei a sugerir tirar ela e conseguir dinheiro e pagar um exame particular para ela. Esse novo sistema tem atrasado muito o paciente de urgência e emergência ser transferido para a Santa Casa”, desabafou Evandro.
Em Passos, a situação não é diferente. A coordenadora de enfermagem da UPA local, Gelza Silva Macedo, relatou que pacientes chegam a esperar até uma semana por uma vaga de internação. “Na semana passada a gente estava com 42 pacientes internados na UPA e a gente tem que cuidar deles aqui. Tem a questão do almoço, tem a questão do café da manhã. E esses pacientes acabam cansando também de esperar a vaga. A gente não tem previsão de quando essa vaga vai sair. Então isso está dificultando muito e a UPA acaba ficando superlotada”, explicou Gelza, evidenciando a pressão sobre as equipes e a infraestrutura das unidades.
A Reação dos Municípios e a Busca por Soluções
Diante do cenário, prefeitos de municípios que integram a Associação dos Municípios da Microrregião do Médio Rio Grande (AMEG) se mobilizaram. Em uma reunião realizada na sede da AMEG, em Passos, com o subsecretário de acesso a serviços de saúde de Minas Gerais, Renan Guimarães Rosa de Oliveira, foram apresentadas críticas contundentes ao programa Core/MG.
O prefeito de São Sebastião do Paraíso, Marcelo de Morais (PSD), um dos mais vocais, afirmou que a demora na regulação das vagas tem causado o congestionamento de pacientes em sua UPA, com alguns aguardando por até 30 horas. Ele destacou que, embora não questione a decisão do Estado de implementar o novo programa, é fundamental que os pacientes sejam regulados para onde há pactuação e espaço para atendimento. Morais revelou ter acionado a justiça, além de ter feito questionamentos ao governador e ao secretário de saúde, buscando o retorno do sistema anterior ou ajustes imediatos no Core/MG.
A AMEG formalizou suas reivindicações ao governo estadual por meio de um ofício, que inclui pedidos como:
- Redução do tempo de resposta das regulações;
- Respeito às referências assistenciais pactuadas;
- Maior transparência nos critérios adotados pelo sistema;
- Fortalecimento das centrais regionais de regulação;
- Criação de um canal permanente de diálogo entre estado, municípios e hospitais.
Representantes de Santas Casas e outras instituições hospitalares presentes na reunião também relataram dificuldades na comunicação com a Central Estadual de Regulação, na definição de fluxos assistenciais e no aumento da demanda administrativa, que compromete a eficiência do atendimento e sobrecarrega as equipes. O presidente da AMEG, Daniel Ferreira da Silva (PSD), prefeito de São Tomás de Aquino, enfatizou que apenas explicar o funcionamento da ferramenta não é suficiente; são necessários ajustes para que o sistema funcione de forma eficiente e atenda às expectativas da população.
A Visão do Estado e os Próximos Passos
Em resposta às críticas, o subsecretário Renan Guimarães Rosa de Oliveira defendeu que as transferências são realizadas de acordo com a prioridade e que cada caso é avaliado individualmente. Ele afirmou que o sistema é transparente em relação aos critérios adotados e que a secretaria não identificou, até o momento, extrapolamento de tempo para as internações. “A gente se utiliza de uma grade de referência que busca sempre a unidade mais próxima que tenha um leito disponível, partindo da primeira avaliação feita pela condição clínica do paciente, diagnóstico dele e também do tratamento solicitado”, explicou, ressaltando que a prioridade é sempre o município, microrregião e macrorregião, mas sem se limitar a elas.
Durante o encontro, o subsecretário apresentou o funcionamento do sistema Core/MG e sugeriu que as demandas fossem unificadas pela AMEG, o que, segundo ele, facilitaria a elaboração de um plano de ação conjunto para atender aos municípios. A expectativa é que esse diálogo possa resultar em melhorias significativas para o sistema de regulação, garantindo que os pacientes do Sul de Minas recebam o atendimento necessário de forma ágil e eficiente.
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