Uma conquista histórica para a radiodifusão universitária
Após quase quatro décadas de uma trajetória marcada por resistência, ativismo estudantil e desafios técnicos, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) concretizou um marco histórico nesta sexta-feira (3). A instituição inaugurou oficialmente a Rádio UFRJ FM, operando na frequência 88,9 MHz. O projeto, que nasceu de forma improvisada em 1989 com um transmissor do tamanho de uma caixa de sapatos, agora ganha corpo como um veículo de comunicação de grande alcance, com potencial para atingir cerca de 10 milhões de ouvintes em todo o Grande Rio.
A nova emissora é fruto de uma parceria estratégica com a Empresa Brasil de Comunicação (EBC). A estrutura de transmissão foi instalada no Morro do Sumaré, situado no Parque Nacional da Tijuca, após a obtenção da licença definitiva em 2025. O projeto representa não apenas uma conquista técnica, mas a consolidação de um espaço de resistência que, durante anos, operou sob a pecha de “rádio pirata” antes de encontrar o caminho da legalidade através da mediação do Ministério Público Federal.
Memória e resiliência no dial carioca
O atual diretor da emissora, o professor da Escola de Comunicação Marcelo Kischinhevsky, é uma das figuras centrais dessa história. Ele recorda com emoção os primórdios da “Rádio Livre”, que posteriormente se tornou “Rádio Interferência”. O que começou com fitas cassete gravadas em um centro acadêmico transformou-se em um símbolo do ativismo universitário, enfrentando fechamentos policiais e acusações de interferência em frequências aeronáuticas antes de conquistar seu espaço legítimo no dial.
Para viabilizar a infraestrutura atual, a universidade utilizou recursos de emendas parlamentares, superando as restrições orçamentárias que a instituição enfrentou nos últimos anos. Desde 2019, a rádio vinha operando exclusivamente no ambiente digital. A transição para o FM, segundo Kischinhevsky, foi celebrada pela comunidade acadêmica como uma vitória da radiodifusão pública, educativa e universitária, capaz de oferecer uma alternativa real à programação comercial tradicional.
Pluralidade e combate à desinformação
A grade de programação da 88,9 FM busca se distanciar da lógica de mercado, focando em música independente, divulgação científica, esportes e conteúdos infantojuvenis. Além disso, a emissora integra blocos da Rádio MEC AM, reforçando seu papel dentro da Rede Nacional de Comunicação Pública (RNCP). A professora Suzy dos Santos, especialista em políticas de comunicação, destaca que a rádio surge em um momento crítico, oferecendo um contraponto à concentração de mídia e ao uso de concessões públicas para fins privados ou eleitoreiros.
O reitor da UFRJ, Roberto Medronho, enfatiza que a emissora é uma ferramenta essencial no combate à desinformação, um desafio que exige uma comunicação ágil e conectada com a juventude. “A democracia não é um regime político que está garantido”, afirmou o reitor, sublinhando a importância de a universidade ocupar espaços de diálogo com a sociedade para fortalecer o pensamento crítico e a cidadania.
Abertura para a sociedade e o futuro da rádio
Com o objetivo de construir uma grade dinâmica para 2027, a UFRJ abriu uma chamada pública para a seleção de programas. O edital permite que tanto membros da comunidade acadêmica quanto o público externo apresentem propostas, desde que alinhadas aos princípios da comunicação pública. O estudante de jornalismo Davi Maia, que contribuiu com a curadoria musical da inauguração, reforça que a rádio é um espaço de descoberta para a cena independente, longe das amarras das grandes gravadoras.
A emissora, que conta com um Conselho Curador diversificado, reafirma seu compromisso de ser um canal de escuta e debate para o estado do Rio de Janeiro. Para acompanhar o desenvolvimento da programação, os bastidores da rádio e as próximas chamadas públicas, continue acompanhando o Portal de Notícias do Kardec. Nosso compromisso é levar até você informações relevantes, aprofundadas e com o rigor jornalístico que a sociedade exige.