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Excesso de telas na infância: o impacto na criatividade e no brincar tradicional

© Tomaz Silva/Agência Brasil
© Tomaz Silva/Agência Brasil

A infância contemporânea se desenha em um cenário distinto das gerações passadas, onde a tela de um smartphone ou tablet muitas vezes substitui o pátio da escola ou a rua para brincar. Essa transformação é notada por muitos, como a auxiliar de limpeza Hozana da Silva, que com nostalgia recorda as brincadeiras ativas de sua juventude. “É aproveitar muitas coisas assim. Na rua brincava de pique-bandeira, pique-esconde, jogar bola, queimada. Tudo isso eu aproveitei. Eu não vejo crianças brincando mais. Eu vejo as crianças muito sentadas com a mãe, com o celular na mão”, lamenta Hozana, evidenciando uma mudança profunda no cotidiano infantil.

O relato de Hozana não é isolado e reflete uma preocupação crescente sobre como o ato de brincar tem se metamorfoseado. No Dia Mundial do Brincar, celebrado em 28 de maio, a discussão sobre a importância do desenvolvimento infantil e a qualidade das interações ganha destaque. A presença digital se consolidou no mundo real, forçando as brincadeiras tradicionais a coexistirem com o universo das telas, levantando questões sobre os efeitos dessa nova realidade no desenvolvimento da criatividade e das habilidades sociais das crianças.

A metamorfose do brincar e o ciclo da dependência digital

A terapeuta ocupacional da Universidade de São Paulo, Amanda Sposito, aprofunda a análise sobre a dinâmica familiar atual e o tempo dedicado ao brincar. Ela aponta para um contexto de insegurança nas ruas, que restringe as crianças ao ambiente doméstico. Dentro de casa, a realidade de famílias menores e pais com jornadas de trabalho extensas impede que o brincar seja estimulado com a mesma frequência de uma geração atrás. “As famílias acabam delegando muito mesmo pras telas ocupar o tempo dessas crianças que estão ociosas e entediadas em casa”, explica Sposito.

Amanda Sposito é orientadora do estudo “Tecnologias digitais moldam o novo brincar infantil”, que avaliou as atividades de 14 crianças. A pesquisa revelou que o uso excessivo de telas pode criar um ciclo vicioso, onde a perda progressiva da criatividade para brincar ativamente leva a uma maior dependência dos dispositivos digitais. As próprias crianças, segundo a terapeuta, expressam dificuldade em conceber brincadeiras fora do ambiente virtual, tornando-se mais dependentes da condução de um adulto para propor atividades. Esse cenário as empurra de volta para as telas, preenchendo o ócio e o tédio com o consumo digital.

Implicações para a saúde física e mental infantil

Os riscos do uso desregulado das telas vão além da criatividade. A Organização Mundial da Saúde (OMS) e a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) estabelecem limites de tempo de exposição a telas, variando conforme a faixa etária. Essas recomendações são fundamentadas nos diversos efeitos negativos que o excesso pode causar na saúde física e mental, bem como no comportamento infantil. Entre os problemas listados estão a interferência no desenvolvimento cognitivo, questões emocionais, doenças oculares, auditivas e ortopédicas, além da exposição a riscos como o cyberbullying.

É crucial que os aparelhos digitais não substituam atividades básicas como a alimentação e o sono, para evitar a dependência. Além do tempo de tela, a qualidade do conteúdo acessado é uma preocupação, visto que materiais inapropriados podem ser prejudiciais. A lojista Edilaine Ferreira, por exemplo, utiliza aplicativos de controle parental para monitorar e limitar o tempo de tela da filha. “Eu costumo deixar entre uma hora e meia a duas horas que ela tem tempo de tela depois da escola. Brincando com as amigas, jogando. Tudo que ela quiser dentro desse tempo. Eu acompanho muito ela assim no celular, a tela para ver o que ela tá vendo. Porque a gente já passou por situações de aparecer cenas sexuais. Então assim, eu limito muito”, relata Edilaine, destacando a necessidade de vigilância ativa.

Equilíbrio e uso consciente da tecnologia

A abordagem ideal não é proibir a tecnologia, mas sim administrá-la de forma responsável e consciente. Projetos sociais como o Gaming Park, que atende crianças e adolescentes de oito a 17 anos na Rocinha (RJ) e em Vitória (ES), exemplificam como as telas podem ser usadas de maneira positiva. Criada em 2022, a iniciativa integra o ensino multidisciplinar com a narrativa e os aspectos técnicos dos videogames, oferecendo orientações profissionais e planos de carreira no mundo dos esportes eletrônicos.

Dara Coema, coordenadora técnica do Gaming Park, enfatiza a importância de orientar pais e responsáveis sobre o uso das mídias, sem ignorar o potencial educativo da tecnologia. “Nós vemos casos no projeto em que os jogos são ponte para a sociabilidade entre jovens e também, para além dos jogos educativos, que já são ferramentas mais reconhecidas, os jogos também são objetos de cultura que podem contar histórias, podem levantar discussões, podem conscientizar. Quando a gente fala, por exemplo, no competitivo, os jogos podem ser meios para passar valores relacionados ao trabalho em equipe, comunicação. É tudo uma questão de consumo crítico e contextualizado”, afirma Coema, ressaltando o valor da tecnologia quando bem direcionada.

A urgência da educação midiática para a sociedade digital

Para alcançar um equilíbrio no uso das telas e plataformas online, Dara Coema defende a necessidade de letramento digital e educação midiática para toda a sociedade. Para as crianças, isso significa fornecer as ferramentas desde cedo para que se tornem “cidadãos do digital” conscientes e com poder sobre suas escolhas. É fundamental não apenas direcionar o conteúdo, mas também fazê-las compreender por que determinado material é ou não interessante.

A educação midiática envolve discussões sobre o funcionamento dos algoritmos e suas armadilhas, o compartilhamento de dados e a identificação de fake news. “É muito sobre conscientização de todos”, conclui Coema, adicionando que a responsabilidade pelo uso das telas também deve ser compartilhada pelas empresas administradoras das plataformas, que precisam ser fiscalizadas para não estimular o consumo excessivo. O desafio é criar um ambiente digital que promova o desenvolvimento saudável, sem comprometer a essência do brincar e da criatividade na infância. Para mais informações sobre o tema, confira a reportagem original da Agência Brasil.

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