PUBLICIDADE

Projeto Manuelzão lança Meta 2034 para revitalizar Rio das Velhas e seu papel vital no São Francisco

ém, serão concentrados em um trecho de aproximadamente 30 quilômetros entre o en
Reprodução G1

O Rio das Velhas, um dos mais importantes afluentes do Rio São Francisco, berço histórico e ambiental de Minas Gerais, enfrenta há décadas os desafios impostos pela urbanização e pela atividade humana. Em um esforço contínuo para reverter esse cenário, o Projeto Manuelzão, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acaba de lançar a ambiciosa Meta 2034, uma iniciativa que visa à recuperação da qualidade da água e à restauração da vida aquática em trechos críticos, especialmente na Região Metropolitana de Belo Horizonte.

A proposta delineia um objetivo claro: melhorar a qualidade da água ao longo de 90 quilômetros do rio, abrangendo o trecho entre a foz do Rio Itabirito, em Rio Acima, e a foz do Ribeirão da Mata. Contudo, os esforços mais intensos serão concentrados em uma área de aproximadamente 30 quilômetros, considerada estratégica, que vai do encontro do Rio das Velhas com o Ribeirão Arrudas, em Sabará, até a foz do Ribeirão da Mata. A expectativa é que áreas atualmente classificadas como Classe 4, que denotam severas restrições de uso, alcancem a Classe 2, condição que permite a existência de peixes e a prática de algumas atividades recreativas, devolvendo ao rio sua vitalidade e funcionalidade ecológica.

O Legado do Rio das Velhas e o Desafio da Poluição

Com seus cerca de 806 quilômetros de extensão, o Rio das Velhas nasce em Ouro Preto e serpenteia por Minas Gerais até desaguar no Rio São Francisco, na Barra do Guaicuí, distrito de Várzea da Palma, no Norte do estado. Ao longo da história, este rio desempenhou um papel crucial na ocupação do território mineiro e foi fundamental para o ciclo do ouro, moldando a paisagem e a cultura da região.

Apesar de sua inegável relevância histórica e ambiental, o Rio das Velhas tem sofrido intensamente com a degradação. O lançamento de esgoto doméstico e industrial sem tratamento, a ocupação irregular de suas margens, o desmatamento das matas ciliares e os impactos da atividade minerária são alguns dos principais fatores que comprometem a saúde do ecossistema. Essa realidade se agrava em municípios como Santa Luzia, onde, segundo o secretário municipal de Meio Ambiente, Agricultura e Abastecimento, Vicente Rodrigues, grande parte do esgoto gerado na região ainda chega diretamente ao curso d’água. Ele ressalta que Santa Luzia, por estar na parte mais baixa do Médio Alto Rio das Velhas, recebe a carga de esgoto de cidades como Ouro Preto, Rio Acima, Sabará, Nova Lima, Belo Horizonte e parte de Contagem, evidenciando a necessidade de uma abordagem integrada.

Meta 2034: Um Plano Ambicioso para a Vida Aquática

A Meta 2034 não surge do nada; ela é uma continuidade do trabalho pioneiro iniciado pelo Projeto Manuelzão no final da década de 1970. O coordenador e idealizador da iniciativa, Apolo Heringer, destaca os avanços já conquistados: “Foi de 60% a melhoria da qualidade da água do Rio das Velhas, confirmada pela volta dos peixes em grande quantidade até o Médio Rio das Velhas”. Esse progresso, impulsionado pela implantação de estações de tratamento de esgoto (ETEs), serve de base e inspiração para os novos desafios.

Heringer enfatiza a importância estratégica da recuperação do trecho metropolitano. “Nessa região aí, bem pequena, são 30 quilômetros de meandro do rio, estão concentrados mais de 70% da população de toda a bacia. Está concentrado mais de 70% do PIB e mais de 70% de todo o esgoto e lixo da bacia. Se a gente resolver o problema nessa pequena área hidrográfica, que corresponde a 4% da área de toda a bacia, nós já estaremos salvando o Rio das Velhas”, explica. A concentração de esforços nessa área de alta pressão demográfica e econômica é vista como o catalisador para a revitalização de toda a bacia.

Ações Essenciais para a Recuperação e a Colaboração Necessária

Para que a Meta 2034 seja bem-sucedida, um conjunto de medidas integradas é fundamental. A ampliação da coleta e do tratamento de esgoto é prioritária, exigindo o “turbinamento” de estações como a ETE Arrudas e a ETE Onça, além de um esforço conjunto de todos os municípios que possuem contratos com a Copasa. A infraestrutura existente precisa ser fortalecida e modernizada para suportar a demanda crescente e garantir a eficácia do tratamento.

A colaboração entre os diversos atores é um pilar central. Vicente Rodrigues reforça que “a forma de equacionar o problema de verdade é cada município se preocupar com a sua parte, entendendo que o rio não enxerga fronteiras. Não adianta apenas uma cidade resolver o problema”. Essa visão de responsabilidade compartilhada é crucial para o sucesso de qualquer projeto de recuperação de bacias hidrográficas, onde a interconexão dos ecossistemas exige soluções que transcendam limites administrativos.

O Impacto da Mineração e a Esperança de um Futuro Melhor

Além da poluição urbana, a Meta 2034 também aborda a complexa questão da segurança hídrica em áreas de mineração. A bióloga Daniela Campolina, integrante da coordenação do Observatório de Barragens de Mineração da UFMG, alerta para a presença de 55 barragens de mineração e diversas pilhas de rejeitos localizadas acima dos pontos de captação de água do Rio das Velhas. “Se essas estruturas não forem bem monitoradas e não houver fiscalização e manutenção adequadas, podem ocorrer vazamentos ou rompimentos”, afirma Campolina, destacando que muitas dessas estruturas são antigas e precisam ser adaptadas para o novo cenário climático.

A recuperação do Rio das Velhas é uma esperança para muitos, como Osvaldo Eduardo da Silva, pescador há décadas na região. Ele recorda com saudade os tempos em que o rio era abundante em peixes, mencionando a captura de surubins de até 15 quilos. “Eu quero melhora. Quero que meus netos possam nadar, pescar e usar essa água até para beber”, expressa Osvaldo, sintetizando o desejo de reconexão das comunidades com o rio. Apolo Heringer, ao defender a nova etapa do projeto, resume a essência da iniciativa: “O Velhas é um mestre que nos ensina a pensar, a ter solidariedade e a querer mudar o mundo para melhor”.

A jornada para a recuperação do Rio das Velhas é longa e desafiadora, mas a Meta 2034 representa um compromisso renovado com a sustentabilidade e a vida. Para acompanhar os desdobramentos deste e de outros projetos ambientais cruciais para o Brasil, continue acessando o Portal de Notícias do Kardec, sua fonte de informação relevante, atual e contextualizada sobre os temas que impactam nossa sociedade e o meio ambiente. Saiba mais sobre a gestão de recursos hídricos no Brasil.

Leia mais

PUBLICIDADE