Itajubá, uma cidade com pouco mais de 100 mil habitantes no Sul de Minas Gerais, consolidou-se como um dos mais importantes polos aeronáuticos do Brasil. Com 44 empresas do setor e uma movimentação econômica anual que atinge a impressionante marca de R$ 1,4 bilhão, a região se destaca no cenário nacional. Contudo, por trás dos números robustos de crescimento e da geração de cerca de 5 mil empregos diretos, emerge um desafio persistente e paradoxal: a dificuldade em reter a mão de obra qualificada que a própria cidade forma em abundância.
O avanço da atividade aeronáutica em Itajubá não apenas impulsionou a criação de postos de trabalho, mas também fomentou o surgimento de startups e a ampliação da formação técnica especializada. Paradoxalmente, a limitação de vagas altamente especializadas no mercado local tem levado muitos recém-formados a buscar oportunidades em outros grandes centros do país, gerando um “êxodo” de talentos que preocupa as lideranças locais e empresariais.
O paradoxo do crescimento e a evasão de talentos no polo aeronáutico de Itajubá
Apesar do dinamismo econômico e da reputação crescente, a realidade para quem busca uma primeira colocação na área pode ser desafiadora. Camila Milene Quintiliano Luz, estudante do último período de engenharia aeronáutica, relata a dificuldade em encontrar emprego na região. “Não consegui emprego na área aqui na região. A área é considerada fechada e, infelizmente, mais difícil para mulheres”, afirma, evidenciando uma barreira adicional para profissionais femininas no setor. Este cenário contrasta com o volume de investimentos e a infraestrutura de formação disponível.
A Unifei como pilar e o desafio da absorção de profissionais
A Universidade Federal de Itajubá (Unifei) é, sem dúvida, um dos pilares fundamentais para o desenvolvimento do setor na cidade. Seu curso de Engenharia Mecânica com Ênfase em Aeronáutica já formou mais de 200 engenheiros, com uma média de 26 formandos por ano nos últimos cinco anos e uma taxa de empregabilidade de cerca de 79%. Dos 137 ex-alunos acompanhados pela instituição, 74 estão atualmente atuando no setor aeronáutico ou aeroespacial, um indicativo da qualidade da formação. Para mais informações sobre a instituição e seus cursos, visite o site oficial da Unifei.
No entanto, o coordenador do curso, Yohan Alí Díaz Méndez, explica que, embora a formação seja voltada para as transformações do mercado, muitos profissionais precisam deixar Itajubá após a graduação. “Buscamos formar profissionais com visão sistêmica, preparados para acompanhar a evolução tecnológica. O que acontece é que o número de empresas do ramo aeronáutico na cidade ainda é limitado”, pontua Méndez. Ele acrescenta que muitos estudantes já chegam à cidade com a expectativa de buscar oportunidades em grandes empresas de outros centros após a formatura.
A dificuldade de absorver todos os profissionais formados é um ponto de atenção, conforme ressalta Maurício Bittencourt, diretor da Inovai, entidade que gerencia o ecossistema de inovação local. “A oferta de profissionais formados em Itajubá sempre foi maior que a demanda. A cidade é de pequeno porte e sua atividade econômica nem sempre consegue absorver todo esse contingente”, explica Bittencourt, sublinhando que esse desequilíbrio leva à saída de talentos, apesar da reconhecida qualidade da formação.
Indústria consolidada e o papel da inovação no ecossistema local
Apesar do desafio da retenção, a presença industrial em Itajubá consolidou um ambiente aeronáutico robusto fora dos grandes centros. A Helibras, por exemplo, instalada há 48 anos, já produziu cerca de 900 helicópteros e é uma das principais empresas do setor na cidade. Para o presidente da empresa, Amaury Bastos, o crescimento do polo ocorreu de forma orgânica e integrada. “A região já possuía uma vocação para a engenharia e para a formação profissional. Ao longo dos anos vimos o crescimento das escolas técnicas, da UNIFEI, dos fornecedores e das startups. Houve uma evolução significativa que ajudou a consolidar todo o ecossistema aeronáutico da cidade”, afirma. A empresa também se preocupa com a qualificação, buscando contribuir para que a região continue formando profissionais preparados.
O engenheiro Gabriel Bertozzi, egresso da Unifei, conseguiu se inserir no mercado local e elogia a preparação oferecida pela universidade. “A universidade prepara muito bem, principalmente pela prática. Tivemos contato com projetos, laboratórios e situações muito próximas da realidade da indústria. Isso facilita a entrada no mercado e ajuda os alunos a chegarem mais preparados às empresas”, destaca Bertozzi.
Nos últimos anos, o crescimento de startups e pesquisas com drones tem ampliado as possibilidades no setor. A incubadora INCIT já apoiou mais de 100 startups, muitas delas originadas dentro da Unifei. “Existe um movimento claro de transformar conhecimento em produto. São iniciativas que estimulam pesquisadores a desenvolver projetos que culminam em empresas inovadoras, que passam a demandar profissionais qualificados e criam oportunidades para quem se forma aqui”, observa Maurício Bittencourt. As pesquisas com drones avançam em áreas como transporte, inteligência artificial e agricultura de precisão, aproximando a academia das demandas reais da sociedade, conforme explica o professor Alexandre Ramos. Projetos estudantis, como os da equipe Black Drones, também são cruciais para a inserção profissional, como aponta a estudante Rafaella Abrão: “Isso nos aproxima da realidade do setor. Trabalhar em projetos como esse nos permite entender como a indústria funciona e aplicar, na prática, o que aprendemos na universidade”.
A disputa nacional por profissionais qualificados e as estratégias locais
A integração entre universidade, indústria e empreendedorismo é vista como um diferencial pelas empresas do setor, como a NexAtlas. A CEO Ana Raquel Calháu afirma que “a conexão entre universidade, indústria e empreendedorismo cria um ambiente fértil para inovação”. No entanto, ela ressalta que a disputa por profissionais qualificados é um desafio que se estende por todo o Brasil. “Existe um desafio real no Brasil: formar e reter talentos especializados. Como temos grandes empresas aeronáuticas competindo pelos mesmos profissionais, principalmente em polos tecnológicos como Itajubá e São José dos Campos, a disputa por mão de obra qualificada é bastante intensa”, explica Calháu.
Para enfrentar esse cenário e aumentar a atratividade da cidade, diversas iniciativas estão sendo implementadas. Entre elas, destaca-se o selo de Indicação Geográfica (IG) para serviços de tecnologia, apresentado no evento HardTech Innovation 2026. “A ideia é aumentar a competitividade e atrair novos investimentos para a cidade, para que mais profissionais venham para cá e até mesmo permaneçam aqui”, afirma Andresa Paes, analista do Sebrae.
O prefeito Rodrigo Rieira já observa mudanças positivas. “Por muito tempo sofremos com o êxodo de capital intelectual para grandes cidades. Mas hoje, felizmente, estamos vivendo uma onda reversa, em que pessoas de outras regiões estão vindo trabalhar em Itajubá e itajubenses que saíram anteriormente agora estão retornando. Itajubá tem recebido novos investimentos, instalação de novas indústrias e expansão das empresas locais”, declara Rieira, indicando um futuro promissor para a retenção de talentos.
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