A tragédia dos recentes terremotos na Venezuela ganhou um contorno ainda mais dramático para uma família brasileira. O pastor Romildo Batista de Lima, de 69 anos, natural de Chapada de Minas e residente em Uberlândia, no Triângulo Mineiro, foi uma das vítimas fatais dos sismos que abalaram o país vizinho. Contudo, a dor da perda foi rapidamente sucedida por um desafio inesperado: a complexidade e o alto custo para repatriar seu corpo, estimado em até R$ 50 mil, um valor que a família não consegue arcar sem ajuda.
A Tragédia na Venezuela e o Drama da Repatriação
Na noite de quarta-feira, 24 de janeiro, dois fortes terremotos atingiram a região norte da Venezuela, incluindo a capital Caracas, onde Romildo estava visitando a família de sua esposa, Carlha Nacarid. Os tremores, considerados os mais intensos no país em mais de um século, causaram destruição e um elevado número de vítimas. O casal tentou buscar abrigo, mas uma parede desabou sobre eles. Romildo foi socorrido e levado a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos, falecendo na madrugada de quinta-feira, 25 de janeiro. Carlha, sua esposa, ficou ferida e segue internada no país.
A notícia da morte do pastor, que havia completado 69 anos poucos dias antes da tragédia, chocou a família em Uberlândia. A sobrinha do casal, Jhulya Ribeiro de Lima, relatou a angústia de tentar contato e, posteriormente, a confirmação da perda. A partir desse momento, iniciou-se uma corrida contra o tempo e a burocracia para trazer Romildo de volta ao Brasil, para que pudesse ser velado e sepultado junto aos seus entes queridos.
Burocracia e Custos Elevados: Os Obstáculos do Translado
O que à primeira vista poderia parecer uma simples viagem de retorno, mesmo que póstuma, revelou-se uma operação intrincada e financeiramente pesada. Diferentemente do transporte de passageiros, a repatriação de um corpo segue um rigoroso conjunto de regras internacionais e nacionais, que tornam o processo dispendioso e demorado. Uma passagem aérea comercial, que custaria pouco mais de dois salários mínimos entre Caracas e Uberlândia, não é uma opção viável para o translado de restos mortais.
O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) esclarece que, embora o registro consular de óbito seja gratuito, a legislação brasileira não prevê o custeio de despesas como embalsamamento, cremação, sepultamento ou o próprio translado, salvo em situações de extrema excepcionalidade. Na prática, os custos, que podem variar entre R$ 30 mil e R$ 200 mil em casos semelhantes, recaem integralmente sobre a família. No cenário venezuelano, a situação foi agravada pela logística complexa do país, incluindo o fechamento intermitente do aeroporto de Caracas por questões de segurança operacional, adicionando mais camadas de dificuldade e incerteza ao processo.
O Processo Detalhado de Translado Internacional
Para que o corpo de um brasileiro falecido no exterior possa ser repatriado, uma série de etapas burocráticas e sanitárias deve ser cumprida. O primeiro passo é o registro do óbito na embaixada ou consulado brasileiro responsável pela jurisdição onde a morte ocorreu. Este registro deve ser preferencialmente feito por um familiar direto, como cônjuge, filho, irmão ou pais, ou por um representante autorizado, como uma funerária especializada.
São exigidos documentos como o formulário de registro de óbito preenchido, a certidão de óbito emitida pelas autoridades locais, documentos de identidade brasileiro do falecido e do declarante. Após a emissão da certidão consular, ela precisa ser transcrita em um cartório de registro civil no Brasil para ter validade legal em território nacional.
Além do registro, o translado físico do corpo requer a emissão e legalização de outros documentos cruciais: uma autorização para o transporte internacional, a certidão de óbito original, um certificado de embalsamamento e um atestado sanitário que comprove que a morte não foi causada por doença contagiosa. Em casos de doenças infectocontagiosas, a exigência é ainda mais rigorosa, com o corpo devendo ser transportado em uma urna metálica hermeticamente fechada, o que eleva ainda mais os custos e a complexidade logística. Os órgãos responsáveis pela emissão desses documentos variam de país para país, adicionando uma camada de particularidade a cada caso. Para mais detalhes sobre os procedimentos consulares, pode-se consultar o Portal Consular do Itamaraty.
Mobilização e Solidariedade em Meio à Dor
Diante da impossibilidade de arcar com os custos estimados em R$ 50 mil e da inviabilidade de transporte em voo comercial devido ao estado de conservação do corpo, a família do pastor Romildo iniciou uma campanha de arrecadação virtual. A vaquinha online busca não apenas cobrir as despesas do translado, mas também oferecer suporte à Carlha, que se recupera dos ferimentos na Venezuela.
A mobilização nas redes sociais e entre amigos e membros da comunidade de Uberlândia reflete a solidariedade em momentos de extrema dificuldade. Jhulya Ribeiro de Lima expressou o desespero da família em meio à burocracia e à dor da perda: “É muito desesperador porque queremos trazer meu tio, principalmente para fazer um velório digno para ele. Eles ficam jogando o contato um para o outro.” A campanha é um esforço conjunto para garantir que Romildo, um homem de fé, afetuoso e apaixonado por viajar, como descrito por sua sobrinha, possa ter um descanso final digno em sua terra natal, cercado pelo carinho de seus familiares e amigos.
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