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Férias e telas: especialistas alertam para os riscos do uso excessivo em crianças

Férias e telas: especialistas alertam para os riscos do uso excessivo em crianças
Foto: Reprodução/magnific.com

Com a chegada das férias escolares, a rotina de muitas famílias se altera, e o tempo livre das crianças pode acabar sendo preenchido, em grande parte, pelo uso de dispositivos eletrônicos. Embora a tecnologia seja uma ferramenta presente no dia a dia, o excesso de exposição a telas, como celulares, tablets e televisores, acende um alerta entre especialistas da saúde, que apontam para uma série de impactos negativos no desenvolvimento e bem-estar infantil.

A Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) e profissionais como as pediatras Silvia Nigro e Lucila Faria, do Hospital Sírio-Libanês, reforçam a importância de monitorar e limitar o acesso a esses aparelhos, especialmente em períodos de maior flexibilidade, como as férias. Os riscos vão desde alterações de humor e ansiedade até problemas de sono e redução do convívio social, comprometendo aspectos cruciais da infância e adolescência.

Por que as férias intensificam o problema?

Durante o ano letivo, a rotina escolar oferece uma estrutura com atividades lúdicas, momentos de interação com outras crianças e estímulos voltados ao desenvolvimento cognitivo, motor, social e emocional. Nas férias, essa dinâmica muda drasticamente. Com a ausência das aulas, as crianças passam mais tempo em casa, e a falta de uma rotina estruturada, aliada ao tédio, pode impulsionar o uso de telas.

Para pais e responsáveis que trabalham fora ou em regime de home office, os dispositivos eletrônicos muitas vezes se tornam uma forma de ocupar os filhos. Essa realidade não se restringe apenas a crianças em idade escolar, mas também afeta bebês e crianças menores que frequentam creches e escolas, perdendo parte dos estímulos oferecidos por esses ambientes durante o recesso.

Impactos do uso excessivo na saúde e desenvolvimento infantil

O prolongado tempo de tela pode desencadear uma série de problemas de saúde em crianças e adolescentes. Estudos, como a revisão integrativa “Saúde mental: os riscos em crianças e adolescentes pelo uso excessivo de telas”, publicada em 2024 na Revista Sociedade Científica, apontam para distúrbios do sono, ansiedade, depressão e alterações de humor.

A pediatra Silvia Nigro, do Hospital Sírio-Libanês, destaca que o problema surge quando o tempo de tela substitui experiências fundamentais para o desenvolvimento, como brincar ao ar livre, praticar atividade física, interagir com outras pessoas e ter um descanso adequado. Ela alerta que a interferência no apetite e no desempenho escolar também são sinais de que o uso das telas deixou de ser saudável.

Um dos impactos mais comuns é a qualidade do sono. A luz azul emitida por celulares, tablets e computadores inibe a produção de melatonina, o hormônio regulador do sono. Além disso, a intensa estimulação de jogos e vídeos mantém o cérebro em estado de alerta, dificultando o relaxamento e prolongando o tempo para adormecer. A pediatra Lucila Faria, também do Sírio-Libanês, recomenda desligar as telas pelo menos uma hora antes de dormir, estendendo esse intervalo para duas horas em casos de crianças com dificuldade para iniciar o sono.

“É necessário fazer uma transição para o descanso, com atividades tranquilas, como banho, leitura e conversas em família”, explica Lucila. Além dos problemas de sono, o excesso de telas contribui para o sedentarismo, privando as crianças de oportunidades essenciais para o desenvolvimento motor, emocional e social que vêm do movimento e da exploração do ambiente.

Recomendações da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP)

Diante dos riscos, a SBP estabelece limites claros para a exposição a telas, adaptados a cada faixa etária:

  • Até 2 anos: Evitar qualquer exposição às telas, mesmo de forma passiva.
  • De 2 a 5 anos: Limitar o tempo a, no máximo, 1 hora por dia, sempre com acompanhamento de pais ou responsáveis.
  • De 6 a 10 anos: Limitar o uso entre 1 e 2 horas por dia, também com supervisão.
  • De 11 a 18 anos: Limitar o uso de telas e jogos de videogame a 2 ou 3 horas por dia, evitando que o hábito prejudique o sono.

Cenário atual e o desafio dos pais

Apesar das recomendações, a realidade mostra um cenário desafiador. Um levantamento da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal, em parceria com o Datafolha, publicado em agosto de 2025, revelou que 78% das crianças de 0 a 3 anos têm contato diário com telas. Entre 4 e 6 anos, esse índice salta para 94%. A percepção do excesso é compartilhada pelos próprios responsáveis, com quatro em cada dez pais afirmando que seus filhos passam mais tempo do que o ideal em frente aos dispositivos.

Equilibrar o uso da tecnologia com outras atividades essenciais para o desenvolvimento infantil é um desafio constante para as famílias. As férias, em particular, exigem um planejamento consciente para garantir que o tempo livre seja preenchido com brincadeiras, interações sociais e atividades físicas, promovendo um crescimento saudável e integral.

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