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Voto feminino em Juiz de Fora: mulheres são maioria e moldam eleições

Voto feminino em Juiz de Fora: mulheres são maioria e moldam eleições
Uberlândia Reprodução

Em um cenário político cada vez mais dinâmico, o eleitorado feminino emerge como força decisiva nas urnas, especialmente em municípios estratégicos como Juiz de Fora, Minas Gerais. Com 215.859 eleitoras, as mulheres representam 54,6% dos 394.921 eleitores aptos a votar na cidade em 2026, conforme dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Essa predominância não é apenas um número, mas um indicativo claro de que a conquista do direito ao voto, há 94 anos, transformou-se em um poder de influência inquestionável na definição dos resultados eleitorais.

A vantagem feminina em Juiz de Fora é de quase 37 mil votos, uma diferença que, por si só, supera a votação de muitos candidatos eleitos para cargos legislativos. Em 2022, por exemplo, o deputado estadual com a menor votação eleita obteve 28.270 votos. Esse dado ilustra a magnitude do impacto que o eleitorado feminino pode ter em disputas acirradas, tornando a compreensão de suas demandas um fator crucial para qualquer campanha vitoriosa.

A crescente influência do eleitorado feminino

A importância do voto feminino tem se acentuado ao longo das décadas, refletindo uma tendência nacional. O historiador político e diretor do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Fernando Perlatto, destaca que “o eleitorado feminino nunca foi tão importante quanto agora. As mulheres têm decidido as eleições.” Ele cita a última eleição presidencial como exemplo, onde o público feminino foi determinante para a vitória do atual presidente.

Desde 1989, quando as mulheres já somavam 123.201 eleitoras (52,3% do total), o crescimento da participação feminina nas urnas em Juiz de Fora tem sido constante. Esse fortalecimento, segundo Perlatto, já gerou reflexos institucionais, como a criação de cotas para aumentar a representatividade feminina na política. “As mulheres não querem apenas assistir ou serem testemunhas do processo eleitoral. Elas querem participar efetivamente”, afirma.

Escolaridade e pautas estratégicas

Além de serem maioria, as eleitoras de Juiz de Fora também se destacam nos níveis mais altos de escolaridade. Enquanto 29,4% do eleitorado feminino iniciou o ensino superior, entre os homens essa taxa é de 25,8%. No grupo com diploma de graduação, a diferença é ainda maior: 22,54% das mulheres versus 18,35% dos homens. Moacir de Freitas Júnior, professor do Instituto de Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), observa que o eleitorado está “mais concentrado em mulheres entre 50 e 60 anos, com escolaridade elevada e, portanto, mais atentas, mais fiscalizadoras e mais politizadas que os homens”.

Para a socióloga e cientista política Alecilda Oliveira, essa combinação de números e engajamento transforma as mulheres em um dos grupos mais estratégicos das eleições brasileiras. A dimensão desse eleitorado força os candidatos a dialogar com pautas que afetam diretamente a vida das mulheres, como violência doméstica, disparidade salarial, saúde da mulher, creches e políticas de cuidado. “As mulheres se tornaram um bloco estratégico. É o maior eleitorado absoluto e isso faz com que os candidatos precisem dialogar com pautas que são de interesse das mulheres”, explica.

O voto feminino, contudo, não é homogêneo. Alecilda Oliveira ressalta que não se deve analisá-lo apenas pela questão de gênero, mas pelas condições práticas da vida cotidiana. Questões como oferta de creches, escolas em tempo integral, transporte coletivo e acesso à saúde influenciam diretamente a percepção das eleitoras. Ela também destaca a “economia do cuidado”, já que as mulheres ainda concentram grande parte das responsabilidades familiares, o que as torna mais sensíveis a propostas que facilitem seu dia a dia.

Desafios da representatividade e ataques ao voto feminino

Apesar de serem maioria nas urnas e Juiz de Fora ter tido a primeira prefeita de sua história, as mulheres ainda estão sub-representadas nos cargos de poder. Alecilda Oliveira aponta um “déficit de legitimidade democrática” e um desequilíbrio entre quem vota e quem exerce os mandatos, o que pode aumentar a cobrança sobre partidos e candidatos para que apresentem propostas que realmente dialoguem com as demandas femininas.

Em um contraponto preocupante a esse avanço, o direito ao voto feminino, consolidado na Constituição de 1934, após ser reconhecido em 1932, ainda é alvo de ataques. Grupos ligados à “manosfera” e correntes “red pill” defendem a restrição ou o fim do voto feminino, alegando uma suposta influência negativa das mulheres nos resultados eleitorais. Embora minoritárias, essas posições ganham visibilidade nas redes sociais e reacendem debates sobre igualdade de direitos.

Alecilda Oliveira alerta que essa discussão não é aleatória: “Se você anula a maioria do eleitorado, você vai conseguir que eles, os homens, continuem sendo os eleitos e que eles não tenham que dar as respostas que a gente quer.” Moacir de Freitas Júnior complementa, mencionando o crescimento de movimentos de violência simbólica e política contra as mulheres, que resgatam ideias do passado de que “política é coisa de homem” e que “mulher não sabe votar”. Ele enfatiza a necessidade de combater duramente essas ideias, que reverberam socialmente e resultam em mais violência contra as mulheres.

A manosfera, um conjunto de comunidades virtuais antifeministas, e a subcultura “red pill”, que alega ter “despertado” de uma ilusão social dominada pelo feminismo, disseminam visões estereotipadas e hostis sobre mulheres e relacionamentos. Um exemplo recente foi a fala de um youtuber, apoiador da extrema direita, que afirmou que “mulheres votam, estatisticamente, muito mal, principalmente as solteiras”, evidenciando a persistência desses discursos.

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