Um episódio atípico e que levanta debates sobre a conduta nas frequências aeronáuticas ganhou repercussão após um piloto, que realizava um voo entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais, ser alvo de uma provocação via rádio. Durante uma discussão técnica sobre alterações na rota de sua aeronave, o profissional ouviu a frase: “Amigão, você não manda nem em casa, quer mandar aqui”.
O caso ocorreu em 4 de setembro, envolvendo um Cessna 525 CitationJet M2, de matrícula PS-KCI. A aeronave decolou do Aeroporto de Jacarepaguá, na capital fluminense, com destino a Varginha, no Sul de Minas. A bordo, além do piloto Pedro Costa, de 35 anos, estavam um copiloto e um passageiro.
O impasse sobre a trajetória do voo
Segundo o relato de Pedro Costa, que possui 14 anos de experiência na aviação, o plano de voo original precisou ser ajustado ainda em solo para contornar uma área militar ativa. Já em pleno ar, o controle de tráfego aéreo solicitou uma nova alteração, orientando a aeronave a seguir pelo fixo MUDKA. O piloto argumentou que a mudança o obrigaria a percorrer uma distância significativamente maior, indo inicialmente na direção oposta ao destino final.
Preocupado com a autonomia de combustível e a eficiência operacional, o piloto questionou a necessidade do desvio. Ele afirmou que, ao verificar os sistemas de monitoramento de tráfego a bordo e registros de rastreamento, não identificou outras aeronaves na região que justificassem a manobra de segurança solicitada pelo controle. A situação gerou um diálogo técnico, no qual a controladora explicou que a medida visava o sequenciamento de tráfego para o Aeroporto Internacional do Galeão.
A quebra de protocolo na fonia
Foi em meio a essa interação que o comentário irônico surgiu na frequência, proferido por uma voz ainda não identificada. O piloto ressaltou que a comunicação com a controladora foi cordial e profissional, mas classificou a intervenção externa como inadequada. Para ele, o uso da frequência para comentários pessoais ou ironias é uma distração perigosa, que pode comprometer a escuta de informações vitais, especialmente em situações de emergência.
O episódio foi registrado por entusiastas da aviação que monitoram as frequências de rádio, prática comum entre interessados no setor. Thamiris dos Passos, que divulgou o áudio, destacou que a informalidade do comentário destoava completamente do padrão técnico exigido nas comunicações aeronáuticas. O material rapidamente circulou em redes sociais especializadas, gerando debates sobre a postura de quem opera o sistema de controle.
Segurança operacional e desdobramentos
O piloto Pedro Costa informou que seguiu as orientações recebidas após o esclarecimento da controladora, garantindo a segurança do voo. No entanto, ele decidiu formalizar o ocorrido por meio de um Relatório de Prevenção (RELPREV), submetido à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). O objetivo é que o órgão analise não apenas a alteração de rota, mas também a conduta do autor da frase, que fere os princípios de objetividade e profissionalismo da fonia aeronáutica.
O Departamento de Controle do Espaço Aéreo (Decea), responsável pela gestão do tráfego aéreo no país, foi procurado para comentar o caso e a identificação do autor da fala, mas não forneceu retorno até o fechamento desta reportagem. O Portal de Notícias do Kardec segue acompanhando os desdobramentos deste caso, comprometido em trazer informações apuradas sobre a segurança e a rotina da aviação brasileira.