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Financiamento global em declínio põe em xeque avanços históricos contra o HIV e a AIDS

Financiamento global em declínio põe em xeque avanços históricos contra o HIV e a AIDS
© Fernando Frazão/Agência Brasil

A luta global contra o HIV e a AIDS alcançou um marco significativo em 2025, com o registro dos menores níveis de novas infecções e mortes relacionadas à doença em todo o mundo. Os dados, divulgados pelo Programa Conjunto das Nações Unidas para HIV/Aids (Unaids) em relatórios recentes, trazem um alento e reforçam a eficácia das estratégias de prevenção e tratamento desenvolvidas ao longo das últimas décadas. No entanto, essa conquista histórica encontra-se sob grave ameaça devido à drástica redução do financiamento destinado a essas ações cruciais.

O alerta da Unaids é claro: a continuidade dos avanços depende diretamente da manutenção e ampliação dos investimentos. A queda dos recursos pode comprometer não apenas a introdução de novas tecnologias, mas também a sustentabilidade dos programas existentes, colocando em risco milhões de vidas e a meta ambiciosa de erradicar a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030.

Queda recorde e desafios persistentes do HIV

Em 2025, o mundo testemunhou 1,2 milhão de novas infecções por HIV, uma redução de aproximadamente 40% em comparação com os números de 2010. As mortes por AIDS também caíram, chegando a 570 mil no ano passado. Esses números refletem o impacto positivo da ciência e da dedicação de profissionais de saúde e ativistas em todo o planeta.

Apesar do cenário global animador, a realidade não é uniforme. O relatório da Unaids aponta um crescimento no número de novos casos em 21 países e três regiões, incluindo o Brasil. No contexto nacional, o país tem respondido a esse aumento com a ampliação do acesso a medicamentos de prevenção em 41%, um esforço que demonstra o compromisso em conter a epidemia. A 26ª Conferência Internacional de Aids, o maior evento global sobre a doença, que teve início no Rio de Janeiro, reforça a importância do diálogo e da cooperação internacional para enfrentar esses desafios.

Inovação e o imperativo do acesso

Winnie Byanyima, diretora-executiva da Unaids, enfatizou que o fim da epidemia de AIDS não é mais uma aspiração distante, mas uma meta alcançável. Essa perspectiva otimista é impulsionada por inovações científicas, como a profilaxia pré-exposição (PrEP) injetável, capaz de prevenir a infecção em pessoas saudáveis por até seis meses. A PrEP representa um divisor de águas na prevenção, oferecendo uma nova ferramenta poderosa na luta contra o vírus.

Contudo, Byanyima alertou: “Inovação sem acesso não é inovação, e, sim, injustiça. Esses medicamentos continuam fora de alcance para a maioria das pessoas que precisam deles”. A Unaids estima que 20 milhões de pessoas necessitam de acesso à PrEP injetável de longa duração para que a meta de acabar com a AIDS como ameaça de saúde pública até 2030 seja cumprida, um compromisso assumido pelos países-membros das Nações Unidas.

Para que essa visão se concretize, é fundamental garantir preços acessíveis, incentivar a competição via genéricos, promover a fabricação regional, facilitar a transferência de tecnologia e assegurar a rápida introdução desses tratamentos nos programas nacionais de saúde. “A ciência fez o seu trabalho, agora, a política precisa fazer o dela”, complementou a diretora, destacando que a decisão de acabar com a AIDS é uma escolha política que pode prevenir 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à doença.

O impacto do corte de financiamento e a estigmatização

O principal obstáculo para a concretização desses avanços é a queda dos investimentos globais. Em 2025, os recursos do Overseas Development Assistance (ODA), programa de assistência a países de baixa renda, sofreram uma redução de 23%, impactando severamente os programas de HIV. Países africanos, por exemplo, dependem desses recursos para mais de 90% de suas ações relacionadas à epidemia. Essa diminuição afeta não só a oferta de novas tecnologias de prevenção, mas também o tratamento de pessoas já infectadas, com uma em cada cinco pessoas vivendo com HIV no mundo sem acesso a tratamento, proporção que se eleva para quase metade entre as crianças.

Além da questão financeira, a Unaids destaca o preocupante recrudescimento da discriminação contra pessoas LGBTI+ e populações vulneráveis, como trabalhadores sexuais e usuários de entorpecentes. Pela primeira vez, a criminalização de pessoas que se relacionam com outras do mesmo sexo aumentou em 2025, atingindo 66 países. Há também 14 países que criminalizam pessoas trans, 168 onde aspectos do trabalho sexual são proibidos e 152 que punem a posse de pequenas quantidades de drogas.

“Quando as pessoas temem a prisão, a violência, a discriminação, o estigma, elas evitam os serviços de saúde. O HIV se espalha quando direitos são negados. Os direitos humanos não estão separados da resposta ao HIV, eles são a resposta ao HIV”, ressaltou Winnie Byanyima, sublinhando a interconexão entre direitos humanos e saúde pública. A estigmatização cria barreiras intransponíveis para o acesso a serviços essenciais, minando os esforços de prevenção e tratamento.

Apesar dos desafios, a comunidade internacional tem em mãos a oportunidade de consolidar os avanços e, de fato, erradicar a AIDS. A recomposição dos investimentos e a defesa intransigente dos direitos humanos são pilares para que a ciência e a política caminhem juntas rumo a um futuro livre do HIV. Para continuar acompanhando as notícias mais relevantes e aprofundadas sobre saúde, sociedade e outros temas, mantenha-se conectado ao Portal de Notícias do Kardec, seu compromisso com a informação de qualidade e contextualizada.

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