A campanha Maio Roxo, promovida anualmente pela Sociedade Brasileira de Coloproctologia em parceria com outras instituições, volta a acender um importante alerta para a população brasileira. O objetivo é conscientizar sobre as doenças inflamatórias intestinais (DIIs), um conjunto de condições crônicas que afetam o trato gastrointestinal e que, muitas vezes, são subdiagnosticadas. Com uma prevalência estimada em 0,1% da população no Brasil, a iniciativa enfatiza a urgência do diagnóstico precoce e da busca por tratamento adequado para evitar a progressão e complicações dessas enfermidades.
Sintomas como diarreia persistente e dor abdominal, frequentemente negligenciados ou atribuídos a causas menos graves, podem ser os primeiros indícios de DIIs. A campanha busca desmistificar essas manifestações e encorajar as pessoas a procurar ajuda médica especializada, ressaltando que a identificação e intervenção em estágios iniciais são cruciais para um melhor prognóstico e qualidade de vida dos pacientes.
A complexa realidade das doenças inflamatórias intestinais
As doenças inflamatórias intestinais, como a doença de Crohn e a retocolite ulcerativa, representam um desafio significativo para a saúde pública. Caracterizadas por uma inflamação crônica do trato gastrointestinal, suas causas ainda não são totalmente definidas, mas acredita-se que envolvam uma combinação de fatores genéticos, ambientais e uma resposta imunológica desregulada do próprio organismo do paciente. Essas condições podem surgir em qualquer fase da vida, embora sejam mais comuns em adultos jovens, na faixa dos 20 a 30 anos, e em idosos, por volta dos 60 e 70 anos.
A doença de Crohn, por exemplo, pode acometer qualquer parte do trato gastrointestinal, da boca ao ânus, manifestando-se com aftas orais, inflamação no intestino delgado ou grosso, e até complicações anais como fístulas e fissuras. Já a retocolite ulcerativa afeta especificamente o reto e o cólon, concentrando-se na mucosa intestinal. Compreender essas distinções é fundamental para o direcionamento do tratamento, embora muitas terapias sejam eficazes para ambas as condições.
Sinais de alerta que exigem atenção médica
A identificação dos sintomas é o primeiro passo para o diagnóstico. Em entrevista ao programa Tarde Nacional, da Rádio Nacional Amazônia, a médica Mariane Savio, integrante da Sociedade Brasileira de Coloproctologia, sublinhou a necessidade de diferenciar os sintomas comuns de sinais que indicam a necessidade de uma investigação aprofundada. Ela alertou para a diarreia persistente, especialmente por mais de um mês ou quatro semanas, como um indicativo crítico.
Além da diarreia crônica, outros sinais de alerta incluem dor abdominal que causa incômodo significativo, emagrecimento inexplicável e anemia. “É muito importante procurar um especialista. Às vezes os sintomas podem passar batidos, e a doença progredir. Então, diarreia persistente, principalmente por mais de quatro semanas, mais de um mês, merece investigação, dor abdominal que esteja incomodando também merece uma visita ao médico, emagrecimento, anemia, tudo isso tem que ser investigado”, explicou a Dra. Mariane, reforçando que a desatenção a esses sinais pode levar à perda da “janela de oportunidade” para um tratamento mais eficaz.
O caminho para o diagnóstico preciso
Uma vez identificados os sintomas de alerta, o próximo passo é buscar um especialista. A Dra. Mariane Savio indica que o paciente procure um coloproctologista ou um gastroenterologista. Esses profissionais são capacitados para solicitar os exames complementares necessários para confirmar o diagnóstico. Na maioria dos casos, a colonoscopia é o exame padrão-ouro, permitindo a visualização direta do intestino e a coleta de biópsias para análise.
Contudo, exames de imagem como tomografia, ressonância e até ultrassom também são cruciais, especialmente quando a doença afeta o intestino delgado ou fino, áreas que podem ser de difícil acesso pela colonoscopia. A médica ressalta que, apesar da importância desses exames, o acesso a eles ainda é uma grande barreira no Brasil. Filas de espera que podem ultrapassar um ano para a realização de uma colonoscopia são uma realidade em muitos locais, atrasando o diagnóstico e comprometendo a eficácia do tratamento inicial.
Tratamento e a importância do acesso
O Sistema Único de Saúde (SUS) desempenha um papel fundamental no tratamento das DIIs, oferecendo protocolos clínicos e diretrizes terapêuticas, além do fornecimento de medicamentos essenciais. Em situações mais graves, pode ser necessária a intervenção cirúrgica e o uso de uma bolsa de colostomia, um dispositivo externo que coleta fezes e gases, impactando significativamente a vida do paciente.
Com o aumento global de casos de DIIs, a pesquisa tem focado em fatores de risco que podem desencadear ou agravar essas condições. Entre os mais estudados estão o estresse crônico, uma dieta rica em alimentos ultraprocessados e o tabagismo. Embora não sejam causas diretas, o controle desses fatores pode, potencialmente, diminuir o risco de desenvolvimento ou exacerbação das doenças inflamatórias intestinais, reforçando a importância de um estilo de vida saudável.
Apesar dos desafios, a Dra. Mariane Savio enfatiza que, na ausência de um especialista disponível, a busca por um médico da atenção primária é vital. Esse profissional pode iniciar a investigação, fornecer os primeiros encaminhamentos e garantir que o paciente não perca tempo precioso, evitando complicações e garantindo o início do tratamento o mais rápido possível. A conscientização e o acesso facilitado à saúde são pilares para enfrentar as DIIs no Brasil.
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