PUBLICIDADE

Matrículas em creches avançam, mas desafios persistem na educação infantil

© Angelo Miguel/MEC
© Angelo Miguel/MEC

As matrículas em creches no Brasil registraram um avanço significativo de 11% em quase uma década, atingindo 43,3% das crianças de 0 a 3 anos em 2025. Os dados, divulgados em junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) através do módulo Educação da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, revelam que cerca de 4,5 milhões de bebês e crianças estão agora em creches, um marco na série histórica iniciada em 2016.

matrículas: cenário e impactos

Esse crescimento, que representa um aumento de 2,2 pontos percentuais em relação a 2024 (41,1%), é um indicativo positivo do esforço nacional para ampliar o acesso à educação infantil. Contudo, apesar do progresso, o país ainda não alcançou a meta de 50% de atendimento para essa faixa etária, prevista pelo Plano Nacional de Educação (PNE) que vigorou até dezembro de 2025. O novo PNE, para o decênio 2024-2034, já estabelece uma meta ainda mais ambiciosa: atender no mínimo 60% das crianças de 3 anos.

Avanço na educação infantil: um olhar sobre os dados do IBGE

Em 2025, o Brasil contabilizou 9,4 milhões de crianças de 0 a 5 anos matriculadas em escolas ou creches, conforme o levantamento do IBGE. O crescimento no acesso à educação infantil para crianças de 0 a 3 anos é notável, passando de 31,8% em 2016 para os atuais 43,3%. Esse patamar é o maior já registrado, evidenciando uma tendência de expansão contínua.

Apesar de a matrícula em creche não ser obrigatória, a oferta de atendimento para crianças de 0 a 3 anos é um direito fundamental assegurado ao cidadão. Dessa forma, recai sobre o poder público a responsabilidade de garantir a disponibilidade desse serviço, atendendo à demanda por vagas nessa etapa crucial da educação básica.

Desafios persistentes: planejamento, financiamento e equidade

Para Natália Fregonesi, coordenadora de Políticas Educacionais do Todos Pela Educação, organização da sociedade civil dedicada à melhoria da educação básica pública, o avanço no atendimento de crianças de 0 a 3 anos é importante, mas a expansão precisa ser acelerada. Em entrevista à Agência Brasil, a especialista apontou desafios cruciais como a necessidade de um planejamento mais robusto, financiamento adequado e uma gestão eficiente da oferta de vagas nas redes de ensino.

Natália enfatiza a importância do apoio técnico e financeiro aos municípios, que são os principais responsáveis pela educação infantil. Ela defende um regime de colaboração efetivo entre União, estados e municípios. “Essa expansão precisa ser orientada pela demanda real das redes e deve priorizar a equidade na oferta, além de garantir a qualidade das creches”, afirmou.

A qualidade, segundo o Todos Pela Educação, engloba infraestrutura adequada, propostas pedagógicas consistentes e a valorização de profissionais bem formados. Sem esses pilares, o simples aumento de vagas pode não se traduzir em desenvolvimento pleno para as crianças.

Universalização da pré-escola e as barreiras remanescentes

No que tange à pré-escola, destinada a crianças de 4 e 5 anos, os dados da Pnad Contínua Educação de 2025 são ainda mais animadores. A taxa de atendimento atingiu 96,1%, o maior patamar entre 2016 e 2025, aproximando-se da universalização da oferta de vagas no país. A pré-escola é obrigatória desde a Emenda Constitucional nº 59/2009.

No entanto, o Todos Pela Educação alerta que cerca de 4% das crianças de 4 e 5 anos, o que representa aproximadamente 219 mil crianças, ainda permanecem fora da pré-escola. As desigualdades socioeconômicas são evidentes: enquanto apenas 0,4% das crianças dos 20% mais ricos não estão em sala de aula por dificuldades de acesso, esse percentual sobe para 2,5% entre os 20% mais pobres.

Radiografia das desigualdades: raça, renda e território

Apesar dos avanços gerais, a pesquisa do IBGE revela a persistência de profundas desigualdades raciais, socioeconômicas e regionais no acesso à educação infantil, especialmente para as crianças de 0 a 3 anos em situação de maior vulnerabilidade. Em 2025, 19,6% das crianças pretas, pardas e indígenas estavam fora da escola por dificuldades de acesso, em contraste com 14,2% das crianças brancas e amarelas.

A renda familiar também é um fator determinante. Entre os 20% mais pobres, 24,2% das crianças não acessavam a escola devido a alguma dificuldade, um percentual quatro vezes superior aos 6,4% registrados entre os 20% mais ricos. Natália Fregonesi defende que, para superar essas barreiras, é crucial identificar as vulnerabilidades socioeconômicas, étnico-raciais e regionais.

“É necessário um levantamento preciso da demanda para identificar as particularidades territoriais, as das comunidades mais vulneráveis e, dessa forma, priorizar a abertura de vagas justamente nos territórios e para os grupos que enfrentam mais dificuldades de acesso”, pontuou a coordenadora. As diferenças territoriais são gritantes: Santa Catarina atende a 58,4% das crianças de 0 a 3 anos, enquanto estados da Região Norte, como Amapá (9,4%), Acre (19,0%), Amazonas (20,9%) e Roraima (22,8%), apresentam os menores percentuais do país. Isso reforça a necessidade de um regime de colaboração federativa mais robusto, com apoio técnico e financeiro direcionado às regiões mais desafiadas.

Por que as crianças não frequentam? Opção dos pais e falta de vagas

A pesquisa detalha os motivos da não frequência escolar. Em 2025, a “opção dos pais ou responsáveis” foi o motivo mais citado, abrangendo 64,1% das crianças de 0 a 1 ano e 57,1% daquelas com 2 a 3 anos que não frequentavam creche. Esse padrão foi observado em todas as regiões, com o Centro-Oeste registrando os maiores percentuais.

Embora seja importante respeitar a decisão familiar, a analista de políticas educacionais recomenda que o poder público intensifique a informação sobre os benefícios da educação infantil para o desenvolvimento da criança. A prioridade, contudo, deve ser enfrentar a demanda reprimida. “Atualmente, ainda são mais de 1,7 milhão de crianças nessa situação em que as famílias querem uma vaga e não conseguem por alguma dificuldade de acesso”, ressaltou Natália.

O segundo motivo mais frequente foi a “falta de escola/creche na localidade, falta de vaga ou a não aceitação da matrícula por causa da idade da criança”. Esse fator foi apontado por 28,1% dos responsáveis por crianças de 0 a 1 ano e por 33,4% para as de 2 a 3 anos. As regiões Norte e Nordeste foram as mais afetadas por essa barreira, evidenciando a urgência de investimentos em infraestrutura e planejamento nessas áreas. Para a faixa de 4 e 5 anos, embora o Piauí e o Ceará registrem quase a universalização, o Amapá atende apenas seis em cada dez crianças, reforçando a persistência das disparidades regionais em todas as etapas da educação infantil.

O avanço nas matrículas em creches e pré-escolas é um passo fundamental para o futuro do Brasil, mas a jornada rumo à universalização e à equidade ainda exige esforços contínuos e articulados. Acompanhe o Portal de Notícias do Kardec para análises aprofundadas e informações relevantes sobre educação, sociedade e outros temas que impactam o seu dia a dia. Nosso compromisso é com a informação de qualidade, atual e contextualizada, para que você esteja sempre bem informado.

Leia mais

PUBLICIDADE